PARTES I e II - Introdução e a relevância dos manuscritos semitas

21/08/2013 13:21

PARTES I e II

INTRODUÇÃO E

A RELEVÂNCIA DOS MANUSCRITOS SEMITAS 

 

Por Tsadok Ben Derech

 

 

I - INTRODUÇÃO

 

Muito se discute sobre a elohut (“divindade”) de Yeshua, existindo entre teólogos e leigos miríades de concepções distintas acerca da questão.

Em linhas gerais, podem ser compendiadas as principais correntes de pensamento da seguinte forma:

1ª corrente - Yeshua foi tão somente um profeta, um homem especial e grande professor de moral, não se podendo atribuir-lhe elohut (“divindade”).

2ª corrente - Yeshua foi o primeiro ser criado pelo ETERNO, que lhe concedeu grande autoridade perante os homens, conferindo-lhe o papel de revelar YHWH à humanidade. Yeshua foi gerado com substância divina e é o representante oficial de Elohim junto aos homens. Por ser filho do ETERNO, Yeshua deve obediência ao Pai. À luz deste pensamento, o Mashiach (Messias) é inferior a YHWH, mas superior aos anjos e aos homens.

3ª corrente - a doutrina da Trindade vislumbra Deus como sendo composto de três pessoas divinas em unidade essencial e eterna. Existe um ETERNO, porém, esta unidade é constituída de três pessoas diferentes (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) e que possuem personalidades também distintas.

4ª corrente - a visão de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três aspectos ou três manifestações do ETERNO, que é um. Nesta concepção, não existe nenhuma diferença entre a essência ou a natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Pai é o próprio Filho; o Filho é o próprio Espírito Santo; o Espírito Santo é o próprio Pai, ou seja, não existe nenhuma distinção entre si.

5ª corrente - YHWH é UM (echad). YHWH se revela de muitas maneiras aos homens, precipuamente se revela por meio das k’numeh (manifestações/essências/naturezas) do Pai, do Filho e da Ruach HaKodesh (“Espírito Santo”). O Pai é YHWH; Yeshua é YHWH (Yochanan/João 1) e a Ruach HaKodesh é YHWH (Bereshit/Gênesis 1:2). O ETERNO é UM e possui três distintas k’numeh (essências/naturezas). Esta corrente se distingue da doutrina da Trindade (3ª corrente), porque não crê em três pessoas com três personalidades distintas, mas tão somente em único ETERNO que se revela por meio de três manifestações/essências/naturezas (k’numeh). Também esta concepção não se confunde com a 4ª corrente, visto que esta última acha que o Pai, o Filho e o Espírito são iguais, inexistindo diferença quanto à essência/natureza.

Existem muitas outras teorias teológicas a este respeito, e não temos o objetivo de esgotar o assunto, mas apenas de apresentar uma visão geral do embate doutrinário. Analisaremos a questão acerca da elohut (“divindade”) de Yeshua única e exclusivamente à luz das Escrituras, utilizando os textos semitas da B’rit Chadashá (“Nova Aliança”/“Novo Testamento”) em aramaico.

O aramaico é bastante claro ao expressar que YHWH é UM (e não três pessoas), manifestando-se por meio de três essências/naturezas: o Pai, o Filho e a Ruach HaKodesh. Antes de adentrarmos neste tema propriamente dito, faz-se mister tecer breves comentários sobre a importância do aramaico nos estudos bíblicos.

 

II - A RELEVÂNCIA DOS MANUSCRITOS SEMITAS

 

Demonstram as Escrituras que Yeshua falava hebraico e aramaico:

“E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Sha’ul [Saulo], Sha’ul [Saulo], por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 26:14).

 “E, tomando a mão da menina, disse-lhe: Talita kumi; que, traduzido [do aramaico], é: Menina, a ti te digo, levanta-te.” (Yochanan Marcus/Marcos 5:41).

“Yeshua gritou: Eli, Eli! L’mana sh’vaktani? [aramaico] (Meu Elohim, Meu Elohim! Por que me abandonaste?)” (Matityahu 27:46).

 

Testifica o historiador Geza Vermes que tais línguas eram as nativas de Yeshua:

“Era judaica a civilização a que pertencia Jesus, bem como daqueles que o ouviram e seguiram; sua proveniência e sua província eram a Palestina-Galiléia, sua língua era o aramaico-hebraico.” (Jesus e o Mundo do Judaísmo, edições Loyola, página 37).

 

Vale registrar que o hebraico e o aramaico são idiomas semíticos e com radicais de palavras bastante próximos, tal como, mutatis mutandis, o português e o espanhol. Aproximadamente 70% das palavras em aramaico são reconhecidas pelas pessoas fluentes em hebraico. Assim, era normal que Yeshua dominasse ambos os vernáculos. Para muitos historiadores, o aramaico era a língua corrente e mais falada em Israel durante o primeiro século, sendo o idioma semítico do comércio, usado principalmente pelos segmentos mais pobres da sociedade. Por outro lado, a sabedoria rabínica era veiculada através do hebraico.  Neste sentido, cita-se o historiador David Flusser:

“O Pentateuco foi traduzido para o aramaico para o benefício da classe mais baixa da população de Israel. As parábolas da literatura rabínica, por outro lado, foram todas escritas e ensinadas em hebraico em todos os períodos da história judaica. Assim, não há base para assumir que Jesus não falasse hebraico; e, quando somos informados em At 21:40 que Paulo falava hebraico, devemos valorizar mais este tipo de informação.” (Jewish Sources in Early Christianity, 1989).

 

 Acerca do aramaico, escreveu Rudolf Bultmann:

“... Jesus e o grupo cristão mais antigo viveram na Palestina e falaram aramaico.” (Jesus and the Word, pg. 17).

 

O especialista Hugh J. Schonfield escreveu que existem fortes indícios de que os textos da B’rit Chadashá (“Novo Testamento”) foram escritos originalmente em hebraico ou aramaico:

“Quando nos voltamos para o Novo Testamento, encontramos que há razões para suspeitar de que há um original em hebraico ou aramaico dos Evangelhos de Mateus, Marcos, João e para o Apocalipse.” (An Old Hebrew Text of St. Matthew's Gospel; 1927; p. vii).

 

Para Charles Cutler Torrey (1863-1956), o pioneiro no estudo das relações entre os textos em aramaico e em grego da B’rit Chadashá (“Novo Testamento”), os quatro evangelhos foram escritos no aramaico, por ser a principal língua de Israel no primeiro século:

“O conteúdo dos quatro evangelhos é totalmente palestino [semítico], e a língua em que foram originalmente escritos é o aramaico, a principal língua daquela terra...” (Our Translated Gospels; 1936 p. ix).

 

Dando continuidade às pesquisas de Charles Cutler Torrey, Frank Zimmerman escreveu que muitos estudiosos pensavam equivocadamente que os textos da B’rit Chadashá foram firmados em grego, quando, em verdade, os originais foram escritos em aramaico e posteriormente traduzidos para o grego:

“Minhas próprias pesquisas levaram-me a considerar a posição de Torrey válida e convincente de que os Evangelhos como um todo foram traduzidos do aramaico para o grego.” (The Aramaic Origin of the Four Gospels; KTAV; 1979).

 

Acerca da língua mais falada na Palestina no primeiro século, as próprias Escrituras fornecem importante dica:

“E tornou-se isto conhecido de todos os habitantes de Yerushalayim [Jerusalém]; de maneira que esse campo se chama, na língua da terra, CHAKAL D’MA, que é interpretado como ‘Campo de Sangue’.” (Maassei Sh’lichim/Atos 1:19).

 

De acordo com o versículo citado, a expressão “Campo de Sangue” é chamada, na língua da terra, de Chakal D’ma. Pois bem, qual é a língua que possui os vocábulos Chakal D’ma? O aramaico. Logo, aprende-se com as próprias Escrituras que a língua mais falada em Israel, no primeiro século, era o aramaico.   Isto não significa que o hebraico não fosse usado, pois, como já dito, tal língua também era frequente. Apenas ressalta-se que a maioria da população era fluente em aramaico.

O estudo acerca das línguas originais da B’rit Chadashá (“Novo Testamento”) é extenso e demandaria abordagem mais profícua. Não obstante, foram citados alguns pesquisadores com o intuito de demonstrar que os textos escritos pelos discípulos de Yeshua foram veiculados em hebraico e em aramaico. Consequentemente, deve-se dar muito crédito aos Manuscritos produzidos em tais idiomas. Neste trabalho, demonstrar-se-á que Yeshua é YHWH, consoante os escritos em aramaico da Peshitta, documento importantíssimo que recebeu o seguinte testemunho do patriarca da Igreja do Oriente Mar Eshai Shimun:

“... com referência à originalidade do texto da Peshitta... desejamos declarar que a Igreja do Oriente recebeu as Escrituras das mãos dos próprios benditos apóstolos no aramaico original, a língua falada pelo próprio nosso Senhor Yeshua o Messias...” (Holy Bible from the Ancient Eastern Text, George M. Lamsa, página ii).

 

Sabendo-se que a Igreja do Oriente conservou por dois mil anos os textos da B’rit Chadashá (“Novo Testamento”) em aramaico, torna-se de clareza solar a relevância da Peshitta. Ademais, as Escrituras em grego que abalizam as modernas traduções, inclusive em língua portuguesa, datam de aproximadamente 350 D.C. Neste trabalho, utilizaremos Escrituras em aramaico que foram escritas por volta de 164 D.C, ou seja, muito antes dos textos gregos e sem qualquer influência do Concílio de Niceia (325 D.C).

 

Continua...

 

 

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