PARTE VII - YOCHANAN HAMAT’BIL

24/08/2013 20:10

PARTE VII

YOCHANAN HAMAT’BIL

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Há muitos indícios nas Escrituras de que Yochanan HaMat’bil (Yochanan, o Imersor/“João Batista”) foi essênio ou recebeu instruções deste grupo religioso.

Primeiramente, o anjo Gavri’el, tão mencionado pelo grupo de Qumran, foi quem anunciou a Zecharyah (Zacarias) o nascimento de Yochanan (João) (Lucas 1:8-19). Após a nascença do menino, Zecharyah foi cheio da Ruach HaKodesh (Espírito de Santidade/“Espírito Santo”) e profetizou:

“Você, menino, será chamado profeta do Elohim Altíssimo;

irá à frente do Senhor para lhe preparar o caminho.” (Lucas 1:76).

 

Este texto é uma repetição, com outras palavras, da profecia de Malachi (Malaquias), capítulo 3:1:

“Vejam: [Eu, YHWH] Envio meu mensageiro para abrir o caminho diante de mim; e o Senhor, a quem procuram, chegará de modo repentino a seu templo.

Sim, o mensageiro da aliança, de quem vocês se agradam – observem: Eis que ele vem, diz YHWH dos Exércitos”.

 

A profecia de Malachi (Malaquias), repetida por Zecharyah (Zecarias), fala que antes da vinda de YHWH seria enviado um mensageiro para preparar “o caminho”, e este arauto foi justamente Yochanan (João), conforme Lucas 1:76.

Observe-se que os essênios diziam que eles próprios estariam “preparando o caminho” para vinda de YHWH:

“No deserto, eu preparei o caminho de YHWH...” (1QS VIII).

“E quando estes [os justos essênios] existirem como comunidade de Israel, segundo estas disposições, irão se apartar do meio da residência dos homens de iniquidade para caminhar para o deserto para abrir o caminho d´Aquele. Como está escrito: ‘No deserto, preparai o caminho de YHWH, endireitai a vereda para nosso Elohim’.” (Regra da Comunidade, Col.VIII, 12-14).

“Este é o tempo de preparar o caminho ao deserto...” (Regra da Comunidade, Col.IX, 19).

 

Esta mesma mensagem foi repetida por Yochanan HaMat’bil (João, o Imersor):

“Este é o homem mencionado por Yeshayahu (Isaías), quando disse: A voz de alguém clama: No deserto, preparem o caminho de YHWH! Endireitem as veredas para ele!” (Matityahu/Mateus 3:3).

 

Ambos os textos citados acima (o dos essênios e o sobre Yochanan) são alusões à seguinte profecia de Yeshayahu (Isaías), capítulo 40:3:

“Uma voz clama: Abram um caminho no deserto para YHWH!”.

 

Em razão do citado texto de Yeshayahu/Isaías 40:3, Yochanan e a seita de Qumran se autodeclaram como aqueles que estão “no deserto”, e tanto os essênios quanto os discípulos de Yeshua formaram um movimento conhecido como “o Caminho” (At 9:2, 22:4, 24:14 e 22).

Em suma, os essênios afirmavam que estavam no deserto preparando o caminho de YHWH e, posteriormente, Yochanan (João) fez idêntica assertiva. Ora, se para o grupo de Qumran a sua missão seria o de preparar o caminho de YHWH, isto poderia incluir a formação do líder que seria o mensageiro de Elohim. Partindo da premissa que o mensageiro é Yochanan HaMat’bil (João, o Imersor/“João Batista”), é possível que este tenha recebido instrução dos essênios acerca das Sagradas Escrituras. Será que a Bíblia fornece alguma pista sobre tal assunto? Parece que sim.

Escreveu Lucas que o menino Yochanan (João) “crescia e se fortalecia em espírito” e “viveu no deserto até ao dia em que havia de manifestar-se a Yisra'el (Israel)” (Lucas 1:80).  Eis a pergunta que não quer se calar: se Zecharyah (Zacarias), pai de Yochanan (João), era sacerdote em Yerushalayim, como é possível que o menino tenha vivido no deserto? O que uma criança, filho de um sacerdote, estava fazendo no deserto?

A expressão “no deserto” aparece inúmeras vezes nos Manuscritos de Qumran como se fosse um local específico, indicativo do próprio deserto em que se estabeleciam os essênios. Em outras palavras, os Manuscritos de Qumran afirmam que os essênios estavam “no deserto” e a B'rit Chadashá declara que Yochanan viveu “no deserto” (Lucas 1:80).

Yochanan (João) convivia com seus discípulos perto de Beit Anyah (Betânia) (Yochanan/João 1:28) e esta cidade dista aproximadamente 13 quilômetros de Qumran, a sede da irmandade essênia. Geograficamente, Yochanan encontrava-se muito próximo da seita de Qumran, sendo até mesmo possível que residisse com eles, já que a Bíblia não indica com precisão o domicílio de Yochanan. A única descrição das Escrituras é que Yochanan morava “no deserto” e os textos de Qumran afirmam que os essênios também eram domiciliados “no deserto”. Se não bastasse, os Manuscritos do Mar Morto, escritos pelo grupo religioso, foram encontrados a apenas cinco quilômetros do local ao longo do rio Yarden (Jordão) em que Yochanan costumava realizar a imersão (“batismo”) dos fiéis.

Retorna-se à pergunta: o que o menino Yochanan estava fazendo no deserto e por qual razão passou toda a sua vida naquele local inóspito? (Lucas 1:80). Talvez haja uma explicação. O livro apócrifo conhecido como “o Protoevangelho de Tiago”, que é usado por muitas Igrejas do Oriente, registra que quando o rei Herod (Herodes) mandou matar os meninos de Beit Lechem (Belém) e adjacências, chegou a desconfiar que o filho do sacerdote Zecharyah (Zacarias), Yochanan (João), pudesse ser o Messias de Israel. Então, ordenou a morte da criança, o que levou Elisheva (Isabel) a fugir para uma montanha com o pequeno Yochanan. Após Elisheva (Isabel) clamar ao “monte de YHWH”, uma fenda se abriu e apareceu um mensageiro (ou anjo) de Elohim para os guardar. Posteriormente, Herod (Herodes) mandou matar Zecharyah, já que este não quis entregar seu próprio filho à morte. Assim, Yochanan ficou órfão.

Se esta tradição for verdadeira, isto explicaria o motivo pelo qual Lucas escreveu que o menino Yochanan “viveu no deserto até o dia em que havia de manifestar-se em Israel” (Lucas 1:80). Ou seja, Yochanan teve que se ocultar do convívio social para proteger sua própria vida, sendo recebido por um mensageiro de Elohim nas cercanias de Qumran. Daí, já que o infante não conseguiria sobreviver sozinho no deserto com sua mãe, foi adotado pelo grupo de Qumran, o que faz todo o sentido, uma vez que Flávio Josefo menciona que os essênios adotavam crianças órfãs com o objetivo de instruí-las na Torá do ETERNO.

Ademais, os essênios eram conhecidos como os “filhos de Tsadok (Zadoque)”, pois valorizavam esta linhagem sacerdotal, estabelecida por Tsadok, o justo e piedoso Sumo Sacerdote na época dos reis David e Sholomoh (Salomão). Inclusive há profecia acerca do sacerdócio diferenciado dos descendentes de Tsadok (Yechezkel/Ezequiel 40:46). No grupo de Qumran, havia um sistema hierarquizado em que se destacavam os sacerdotes, principalmente se existisse algum autêntico descendente de Tsadok. Pois bem, Yochanan (João) era filho de Zecharyah (Zacarias), que vinha da família de Aviyah (Abias) (Lucas 1:5), e este último foi neto de Tsadok (Divrei Hayamim/2º Crônicas 24:1-10). Ou seja, Yochanan (João) foi legítimo descendente de Tsadok!!! Caso seja verdadeira a hipótese de que Yochanan foi adotado pelos essênios, isto teria lhe garantido um lugar de alto destaque na comunidade de Qumran.

Tanto os essênios quanto Yochanan estavam no mesmo “deserto”, sendo similares suas respectivas pregações. Relacione as citações:

Essênios: “... para fazer teshuvá (retornar) à Torá de Moshé (Moisés) com todo coração e com toda a alma (...) Por isso o homem imporá sobre sua alma fazer teshuvá (retornar) à Torá de Moshé (Moisés)...” (Regra de Damasco, Col., XV, 9-10 e Col. XVI, 1-2).

Yochanan: Abandonem seus pecados e façam teshuvá (retornem) para Elohim...” (Matityahu/Mateus 3:2).

 

Existe uma semelhança nos sermões: a mensagem de teshuvá. Aparentemente, há a seguinte diferença: os essênios pregavam o retorno à Torá, enquanto Yochanan fala do retorno a Elohim. Porém, em verdade, inexiste qualquer distinção, visto que Yochanan apregoou o abandono dos pecados e, já que “pecado” significa violação à Torá, “abandonar os pecados” exprime a ideia de retorno à Torá dada por Elohim a Moshé. Logo, podem ser identificados três aspectos igualitários nas prédicas dos essênios e de Yochanan: 1) o homem deve abandonar seus pecados; 2) disso decorre o retorno à Torá de Moshé; 3) o que implica o próprio retorno a Elohim.

É proveitoso mencionar que Yochanan se alimentava de gafanhotos (Yochanan Marcus/Marcos 1:6), e esta espécie animal fazia parte da dieta dos essênios (Regra de Damasco, Col.XII, 14).

Um dos grandes legados do essenismo para o Judaísmo Nazareno foi a instituição da tevilá (imersão/“batismo”). E de onde surgiu este instituto?

A Torá estabelece uma série de prescrições em que a purificação passa pela água, como, por exemplo, a) a pessoa curada de tsara’at (“lepra”) deveria lavar suas roupas, raspar os pelos e se banhar em água, e este banho ritual a tornava pura (Vayikrá/Levítico 14:8-9); b) o homem com um fluxo doentio em seu corpo tornava impuro tudo o que tocasse, coisas ou pessoas, e todos deveriam lavar suas roupas e banhar-se em água para fins de purificação (Vayikrá/Levítico 15:5-10); c) quem comesse um animal que morreu naturalmente ou que foi dilacerado por animais selvagens tornava-se impuro, devendo lavar suas roupas e se banhar em água para obter a purificação (Vayikrá/Levítico 17:15); d) todo o capítulo de Bemidbar/Números 19 menciona a “água para purificação do pecado”. Por sua vez, antes de os sacerdotes entrarem na Tenda do Encontro, precisavam lavar-se com água para não morrerem e, antes de ministrarem no altar, deveriam ainda lavar as mãos e os pés para que não sucumbissem (Shemot/Êxodo 30:17-21), porquanto, como todos são pecadores, necessitam obter a purificação pela água antes de se aproximarem de YHWH.

Já que os essênios se consideravam como sendo “o Templo da Ruach” (Espírito) e buscavam viver com a santidade esperada de verdadeiros sacerdotes, passaram a aplicar a si próprios as regras de purificação sacerdotal, e desenvolveram um ritual de purificação diária pela água. Em outras palavras, pensava a comunidade de Qumran que necessitavam ser purificados todos os dias a fim de que pudessem servir ao ETERNO sem mácula.

Citam-se alguns textos dos Manuscritos do Mar Morto acerca da prática da imersão ritual e seu significado:

Que não entrem [os ímpios] nas águas para participar do alimento puro dos homens de santidade, pois não se purificam, a não ser que se convertam de sua maldade; pois é impuro entre os transgressores de sua palavra.” (Regra da Comunidade, Col.V,13-14).

 

Ou seja, o ímpio necessitava se converter primeiro para depois entrar nas águas e, então, poderia comer o alimento com os homens de santidade.

“Então Elohim purificará com sua verdade todas as obras do homem, e refinará para si a estrutura do homem arrancando todo o espírito de injustiça do interior de sua carne, e purificando-o com a Ruach HaKodesh [espírito de santidade/‘Espírito Santo’] de toda a ação ímpia. Aspergirá sobre ele o espírito da verdade com a cerimônia das águas de purificação de todas as abominações de falsidade e da contaminação do espírito impuro.” (Regra da Comunidade, Col.IV, 20-22).

 

Mais uma vez se verifica que, para os essênios, a transformação interior, de pecador a santo, é pressuposto para alguém passar pela cerimônia de purificação pelas águas, a tevilá (imersão/“batismo”).

A prática essênia da tevilá foi incorporada por Yochanan (João), que deu grande importância à imersão nas águas para fins de purificação:

“Confessando seus pecados, eram imersas por ele no rio Yarden (Jordão).” (Matityahu/Mateus 3:6 = Yochanan Marcus/Marcos 1:5).

“Ele [Yochanan] percorreu toda a região do Yarden [Jordão], anunciando a imersão que envolvia o abandono do pecado e a teshuvá [retorno] a Elohim a fim de receber o perdão.” (Lucas 3:3).

 

Tanto os essênios quanto Yochanan acreditavam que a imersão em água era apenas símbolo de uma anterior limpeza da maldade realizada pelo Espírito de Elohim.

Apesar de os fariseus possuírem algumas práticas de purificação pelas águas, afiança a Jewish Encyclopedia (Enciclopédia Judaica) que a origem do “batismo” remonta aos essênios:

“O batismo foi praticado no antigo (chassídico ou essênio) judaísmo...” (verbete “Baptism”).

 

E prossegue a Enciclopédia citada falando acerca da relação entre “o batismo” de Yochanan (João) e os essênios:

“Assim, o batismo não tem apenas o propósito de expiar uma transgressão especial, como é o caso principalmente na violação das chamadas leis levíticas de pureza, mas também é para ser parte de uma vida santa e preparar para a realização de uma comunhão mais íntima com Deus. Esse pensamento é expresso na bem conhecida passagem de Josefo em que ele fala de João Batista (‘Ant.’ Xviii 5 º, § 2.): ‘A lavagem seria aceitável para ele, caso fizessem uso dela, não a fim de colocar para fora alguns pecados, mas para a purificação do corpo, supondo ainda que a alma foi completa e previamente purificada por justiça’. 

João simbolizava o chamado ao arrependimento pelo batismo no Jordão (Mt 3:6 e passagens paralelas).  E a mesma medida para alcançar a santidade foi empregada pelos essênios, cujos estilos de vida João também observava em todos os outros aspectos.” (Jewish Encyclopedia, verbete “Baptism”).

 

Logo, a imersão em água realizada por Yochanan possui verniz tipicamente essênio.

E a imersão na Ruach HaKodesh (“batismo no Espírito Santo”)? Será que existe alguma correlação entre a comunidade de Qumran e Yochanan?

Yochanan ensinou que promovia a imersão em água, mas que viria alguém mais poderoso que faria a imersão na Ruach HaKodesh (“batismo no Espírito Santo”) (Matityahu/Mateus 3:11). Também criam os essênios que existia a imersão na Ruach HaKodesh:

Então Elohim purificará com sua verdade todas as obras do homem, e refinará para si a estrutura do homem arrancando todo o espírito de injustiça do interior de sua carne, e purificando-o com a Ruach HaKodesh de toda a ação ímpia.” (Regra da Comunidade, Col.IV, 20-21).

“Dou-te graças, Senhor, porque estendeste tua Ruach HaKodesh sobre teu servo...” (1QHodayot, Col.IV, 26).

 

Em sua pregação, Yochanan dizia que o Reino de Elohim estava próximo, chamando os homens ao arrependimento (Matityahu/Mateus 3:1-12). Aqueles que não abandonassem seus pecados seriam punidos com “o fogo inextinguível” (Matityahu/Mateus 3:12). O conteúdo da mensagem de Yochanan já se encontrava presente na fraternidade de Qumran, que também enfatizava a proximidade do fim dos tempos (urgência escatológica) e o dia do julgamento que puniria os ímpios com fogo:

os filhos das trevas... com fogo arderá.” (Regra de Guerra, Col.XIV, 17,18).

 

Para o rabino James Trimm, Yochanan vivia entre os essênios, mas um dia recebeu o chamado de Elohim para realizar sua missão específica. Como a seita de Qumran possuía um forte sistema hierárquico, talvez as novas ideias de Yochanan possam ter colidido com os dogmas do grupo, levando-o ao estabelecimento de um ministério paralelo. Escreveu o erudito rabino Trimm:

“No entanto, a vida normal de João em Qumran foi interrompida quando ‘a palavra de Eloah [Elohim] veio a Yochanan ... no deserto’ (Lc 3:2). Em uma comunidade rígida em que todo mundo tinha um posto e ninguém falava nada fora de sua vez, a mensagem de João pode não ter sido bem-vinda. Isso explicaria por que João e seus discípulos se realocaram nas proximidades, perto de Betânia.” (Hebraic Roots Commentary to Mattityahu, Institute for Nazarene Jewish Studies, 2008, página 58).

 

Apesar das semelhanças, há algumas distinções entre a congregação de Qumran e Yochanan. Estas diversidades podem receber duas explicações: 1) Yochanan não foi essênio; 2) Yochanan foi essênio, porém, em dado momento recebeu um chamado específico de Elohim, e adaptou a teologia de Qumran às revelações sobrenaturais que recebeu (tese sufragada pelo rabino James Trimm). Estudemos as dessemelhanças.

Primus, o grupo de Qumran vivia isolado no deserto e não pregava ao mundo externo. Em contrapartida, Yochanan tinha caráter missionário, proclamando a mensagem de arrependimento para a remissão de pecados à multidão de pessoas que vinham de diversos locais de Yisra’el (Lucas 3:7; Matityahu/Mateus 3:5, Yochanan Marcus/Marcos 1:5).

Secundus, os levitas de Qumran amaldiçoavam os ímpios e clamavam pela punição destes ao fogo eterno; já Yochanan chamou os pecadores ao arrependimento e ensinou sobre o perdão de Elohim. Identifique a diferença:

Qumran: “E os levitas amaldiçoarão todos os homens da porção de B’liya’al [Belial]. Tomarão a palavra e dirão: (...)

Maldito sejas, sem misericórdia, pelas trevas de tuas obras, e sejas condenado à obscuridade do fogo eterno.

Que Elohim não tenha misericórdia quando o invocares, nem te perdoe quando expiares tuas culpas.” (Regra da Comunidade, Col.II, 4,5, 7 e 8).

Yochanan: “Foi por isso que Yochanan, o Imersor, apareceu no deserto, proclamando a imersão que envolvia o retorno para Elohim e o abandono do pecado para que fossem perdoados.” (Yochanan Marcus/Marcos 1:4).

 

É útil recordar que nem todos os essênios residiam em Qumran, como já exposto, razão pela qual não se pode afirmar generalizadamente que o essenismo amaldiçoava os pecadores.  Isto é, os essênios de Qumran eram mais radicais e rígidos e isto não reflete, necessariamente, a concepção religiosa de outros essênios que habitavam normalmente nas cidades, desprovidos da dureza eremita.

 Tertius, a comunidade de Qumran (note: são só os essênios de Qumran e não todos os essênios) tinha um forte sistema hierárquico. Existiam níveis e até mesmo para falar nas reuniões deveria ser obedecida uma estrita ordem, do maior ao menor nível de graduação. Para que pessoa de categoria mais baixa pudesse falar a toda congregação, deveria receber o aval daqueles com nível superior (Regra da Comunidade, Col.VI, 8-13).  Opostamente, não se vislumbra esta severa hierarquia entre Yochanan e seus discípulos, nem entre os netsarim.

Quartus, Yochanan reconheceu que Yeshua é o Messias, o Filho de Elohim (Yochanan/João 1:29-34). Parece que os essênios de Qumran não creram em Yeshua, uma vez que nos escritos do Mar Morto (século II A.C. a 68 D.C) não há nenhum tipo de menção ao Nazareno, nem foram encontrados documentos da B’rit Chadashá no local.

Em 1972, o papirólogo espanhol José O’Callaghan afirmou que na Gruta 7 de Qumran existiam fragmentos não identificados e que continham as cópias mais antigas de alguns livros do denominado “Novo Testamento”. Contudo, esta hipótese caiu por terra após investigação mais acurada, já que o maior fragmento (supostamente o livro de Marcos) continha apenas 27 letras, das quais somente 14 são de leitura certa e que assumem diversas leituras possíveis. Enfim, até hoje, não há textos do “Novo Testamento” em Qumran, presumindo-se que a seita não tenha aderido à comunidade de Yeshua. Como veremos adiante, temos uma tese no sentido de que os essênios de Qumran abraçaram a fé em Yeshua, deixando o deserto para pregar as boas novas a toda as nações (Matityahu/Mateus 28:19), permanecendo no local apenas os incrédulos no Salvador.

Quintus, outra diferença entre Yochanan e a irmandade qumrânica tem a ver com o aspecto estético. O primeiro vestia-se com roupas feitas de pelos de camelo, à media que a comunidade vestia-se com roupas brancas, consoante o relato de Flávio Josefo.

Particularmente, entendemos que Yochanan foi essênio da comunidade de Qumran, mas, em dado momento de sua vida, recebeu o chamado de Elohim (Lc 3:2) para pregar o arrependimento ao povo de Yisra’el. Além das lições do rabino James Trimm neste sentido, vale consignar as palavras do historiador David Flusser. Para o esmerado Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Yochanan seria essênio, mas se separou do grupo de Qumran pelo fato de este grupo viver isolado e não levar a mensagem de Elohim para o público externo. Então, Yochanan passou a constituir um movimento derivado de Qumran, cujo objetivo seria levar a mensagem de arrependimento a todo o povo de Israel:

É evidente que João era um dissidente essênio, que se opôs aos seguidores sectários e separatistas do essenismo tanto em sua ideologia como em sua organização social.

(...)

Ele manteve a estrita divisão dualista essênia entre os justos que seriam salvos e os pecadores que seriam destruídos. Entretanto, ao mesmo tempo, ele rejeitava a doutrina essênia da dupla predestinação[1]. Ao contrário, os filhos das trevas podem ser salvos, se se arrependerem (Mt 3:7-10; Lc 3:7-9). Ele adotou a teologia do batismo essênio, mas rejeitou a exclusividade deste rito. Em contraste com os essênios, ele oferecia seu batismo de arrependimento para todo Israel e não apenas para os membros de uma seita. A causa principal da crítica de João à maneira separatista essênia era seu desejo de oferecer as genuínas realizações do movimento essênio a todo o povo de Israel. Não é de se admirar que Jesus fosse atraído por Batista.” (O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, Volume I, Imago, 2002, página 162).

 

 


[1] A doutrina da “dupla predestinação” sustenta que o ETERNO criou e designou previamente os justos para a salvação e os ímpios para a condenação. Alguns estudiosos alegam que, por tal doutrina, não existe o livre arbítrio. Todavia, como já expusemos em outros estudos, a existência de pessoas boas e más não exclui o livre arbítrio, havendo a possibilidade de o ímpio se tornar justo, e vice-versa.

 

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