PARTE III - OS P’RUSHIM E YESHUA: SEMELHANÇAS

21/08/2013 11:06

PARTE III

OS P’RUSHIM E YESHUA: SEMELHANÇAS

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Certos pesquisadores apontam um texto em que há indícios (e não prova concreta) no sentido de que Yeshua era parush (fariseu), consoante a narrativa do evangelho de Yochanan (João). No capítulo primeiro, vários p’rushim (fariseus) travam diálogo com Yochanan HaMat’bil (João, o Imersor/“João Batista”) e este afirma que o Mashiach estava “entre os p’rushim”, levando alguns estudiosos a crer que Yeshua fosse membro deste grupo. Confira a passagem:

“E os que tinham sido enviados eram p’rushim [fariseus].

E perguntaram-lhe, e disseram-lhe: Por que realiza a imersão de pessoas, pois, se tu não és o Mashiach [Messias], nem Eliyahu [Elias], nem ‘o profeta’?

Yochanan [João] respondeu-lhes, dizendo: Eu realizo a imersão com água; mas no meio de vocês está um a quem vocês não conhecem.

Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da sandália.

Estas coisas aconteceram em Beit-Anyah [Betânia], do outro lado do Yarden [Jordão], onde Yochanan [João] estava realizando imersões.

No dia seguinte Yochanan [João] viu a Yeshua, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Elohim, que tira o pecado do mundo.

Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.” (Yochanan/João 1:24-30).

 

Note bem: Yochanan diz que o Mashiach estava “no meio de vocês” (v.26). Pergunta-se: no meio de quem? A resposta situa-se no verso 24: no meio dos p’rushim (fariseus). Logo, depreende-se com toda certeza que Yeshua vivia no meio dos p’rushim, e isto pode levar a três interpretações distintas:

1) Yeshua vivia entre os p’rushim porque Yeshua era parush (fariseu);

2) Yeshua não era parush, mas vivia entre os p’rushim porque sentia afinidade com este grupo do Judaísmo;

3) Yeshua não era fariseu, mas convivia com eles, ainda que discordasse das práticas religiosas destes.

Tanto na primeira hipótese quanto na segunda, fica evidente que o Judaísmo ensinado por Yeshua possui bases no movimento farisaico. Este é o motivo de alguns especialistas alegarem que Yeshua fosse fariseu, ou pelo menos que compartilhasse de suas doutrinas essenciais. Sobre o texto de João 1:24-30, supracitado, comentou o rabino James Trimm:

Yeshua parece ser referido aqui como um fariseu!” (Yeshua the Pharisee?, artigo publicado pela “The Worldwide Nazarene Assembly of Elohim”).

 

Particularmente, achamos impossível rotular, com absoluta certeza, a facção de Yeshua, tendo em vista que seus ensinos são uma mescla de farisaísmo e essenismo, além de ingredientes que tornam a doutrina do Mashiach ímpar. Além do mais, se Yeshua realmente fosse fariseu, este dado seria tão importante que constaria da narrativa dos evangelhos, que ficaram silentes quanto ao tema. Acresce lembrar que a semichá (ordenação rabínica/“autoridade”) de Yeshua era desconhecida (Mt 21:23-27) e o Messias não estudou com os fariseus (Jo 7:14-15).

Eis o que Yochanan (João) escreveu acerca da origem dos seus ensinos de Yeshua:

“Os moradores de Yehudá [Judeia] ficaram surpresos: ‘Como este homem sabe tanto sem ter estudado?’, eles perguntaram. Então Yeshua lhes deu uma resposta: ‘Meu ensino não é meu; procede de quem me enviou’.” (Yochanan/João 7:15-16).

 

Assim, apesar de a compreensão de Yeshua sobre a Torá ser celestial, até pelo fato de Ele ser a Torá Viva, é relevante estudar as raízes do Judaísmo de Yeshua, objetivando-se a melhor compreensão de suas palavras e do contexto histórico-religioso em que foram proferidas.

Vejamos algumas semelhanças entre os ensinos de Yeshua e a doutrina dos p’rushim.

Flávio Josefo, em sua obra, afirma que em sua juventude ingressou em todos os grupos do Judaísmo para conhecê-los e descobrir com qual se identificava e, ao final, tornou-se parush (fariseu). Eis como o historiador fariseu descreve seu grupo:

“Quanto às duas primeiras seitas de que falamos, os fariseus são tidos como os mais perfeitos conhecedores de nossas leis e de nossas cerimônias. O principal artigo de sua crença é tudo atribuir a Deus e ao destino; entretanto, na maior parte das coisas, depende de nós fazer o bem ou o mal, embora o destino possa ajudar-nos muito. Eles dizem também que as almas são imortais; que as dos justos passam depois desta vida a outro corpo e que as dos maus sofrem tormentos que duram para sempre. (...). Enquanto os fariseus são sociáveis e vivem em amizade uns com os outros, os saduceus são naturalmente rudes e vivem mesmo grosseiramente entre si, como se fossem estrangeiros”. (Ob. Cit. Página 1134).

 

Do texto referido, extraem-se algumas características dos p’rushim:

1) são mestres da Torá (“profundos conhecedores de nossas leis”);

2) praticam as cerimônias judaicas, ou seja, seguem as tradições dos antepassados;

3) afirmam que Elohim controla o destino (soberania do ETERNO);

4) pensam que o ser humano possui o livre arbítrio para escolher o bem ou o mal (“depende de nós fazer o bem ou o mal”);

5) creem na imortalidade da alma;

6) creem na ressurreição dos mortos (“as almas dos justos passam depois desta vida para outro corpo”);

7) sustentam que os ímpios serão castigados eternamente (“os maus sofrem tormentos que duram para sempre”);

8) “os fariseus são sociáveis e vivem em amizade”.

Todas estas 8 (oito) características estão presentes nos ensinamentos de Yeshua, conforme se passa a expor.

Os p’rushim eram mestres da Torá, verdadeiros rabinos (Josefo, ob.cit., pg. 1134). Yeshua também é reconhecido como tal, já que era chamado de rabi, ou seja, rabino (Yochanan/João 1:3; 1:49; Matityahu/Mateus 26:25, dentre outros).

Ensinavam os p’rushim (fariseus) nas sinagogas. O mesmo fazia Yeshua:

“E percorria Yeshua toda a Galil [Galileia], ensinando nas suas sinagogas, e pregando as boas novas do Reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo.” (Matityahu/Mateus 4:23).

 

Guardavam os p’rushim as tradições judaicas que foram transmitidas oralmente por seus antepassados (Josefo, ob.cit, pg. 1134).

De acordo com a Mishná, Moshé (Moisés) recebeu a Torá no monte Sinai, acompanhada de ensinamentos e interpretações. A Torá foi escrita por Moshé em seus cinco livros, enquanto os ensinamentos e interpretações não foram redigidos, mas transmitidos oralmente a Yehoshua[1] (Josué), constituindo-se, então, tradições que foram passadas de geração a geração. É o que prescreve a Mishná:

“Moshé [Moisés] recebeu a Torá no Sinai, transmitiu-a a Yehoshua[2] (Josué), este aos anciãos, os anciãos aos profetas, os profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembleia.” (Avot 1:1).

 

Assim, os p’rushim aceitavam tanto a Torá quanto as tradições e os costumes que foram transmitidos oralmente. De modo diverso, os ts’dukim (saduceus) reconheciam apenas a Torá escrita, descartando as tradições:

“Contentar-me-ei agora em dizer que os fariseus, que receberam essas constituições pela tradição de seus antepassados, as ensinaram ao povo. Os saduceus, porém, as rejeitavam, porque elas não estão compreendidas entre as leis dadas por Moisés, que estes afirmam serem as únicas que são obrigados a observar. Isso fez surgir entre eles uma grande divergência, que deu origem a diversos partidos. As pessoas de classe mais elevada abraçaram o dos saduceus, e o povo alinhou-se com os fariseus.” (Josefo,ob.cit., página 606).

 

Yeshua, tal como os fariseus, também observava as tradições, desde que estas fossem compatíveis com as Escrituras. Em Yochanan/João 7:37-38, há a narrativa de que no último dia da festa de sukot, conhecido como Hoshaná Rabá, Yeshua disse: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba! Quem deposita a confiança em mim, como dizem as Escrituras, rios de água viva fluirão de seu interior”. Yeshua se valeu da ocasião em que havia a cerimônia de libação de água do BeitHamikdash (Templo), conforme a prescrição da Lei Oral (Sukot 4:9). Assim, o Mashiach disse que o ritual previsto na Lei Oral era um símbolo profético de si mesmo.

Todos os quatro evangelhos descrevem que Yeshua celebrou com seus discípulos a festa de Pessach (Páscoa), antes de sua morte. O seder de Pessach realizado por Yeshua seguiu o ritual descrito pela Lei Oral.

Eis algumas tradições reconhecidas por Yeshua: dar o dízimo de ervas (Matityahu/Mateus 23:23); proferir uma b’rachá (benção) em relação aos alimentos (Yochanan Marcus/Marcos 6:41 e 8:7); proferir uma b’rachá sobre o vinho e cantar o Halel (“louvor”, extraído dos Salmos) no seder de Pessach (Páscoa) (Yochanan Marcus/Marcos 14:22-23 e 26).

Vale citar a opinião de especialistas no sentido de que Yeshua cumpriu tanto a Torá escrita quanto as tradições judaicas:

“Yeshua cumpriu a Torá e tradições judaicas do período do Segundo Templo.” (Rabino Shmuel Saffrai, The Torah Observance of Yeshua).

“Yeshua representa o ponto de desenvolvimento contínuo e ininterrupto da Bíblia hebraica, ligado a ela através de um suplemento interpretativo que é característico da grande criação literária dos rabinos: a Torá Oral. Como Yehezkel Kaufmann o coloca: ‘A atitude de Yeshua para a Torá é a mesma atitude que se encontra entre os mestres da halachá e da hagadá que seguiram a tradição farisaica.” (Judaism and the Christian Predicament, B.Z. Bokser, Alfred Knopf, York, 1967. pp 208-209).

“Talvez, o mais importante era o seu relacionamento [referindo-se a Yeshua] com a Torá e as tradições, o que alguns o têm descrito como ‘totalmente ortodoxo’ (...).

Essa relação [de Yeshua] com as tradições e práticas do seu dia levou David Flusser a escrever na Enciclopédia Judaica: (Vol. 10, p 14): os Evangelhos fornecem provas suficientes no sentido de que Yeshua não se opôs a qualquer prescrição da [Torá] escrita ou Lei Oral de Moisés.” (Jesus through Jewish Eyes:A Rabbi examines the life and teachings of Jesus, artigo do Rabino John Fischer, Ph.D. Th.D).

“Yeshua parece seguir a halachá dos Sábios, apesar do fato de que essas tradições não estão explicitamente na Torá Escrita.” (Why Nehemia Gordon is Wrong About Matthew 23:3?, artigo do rabino Tim Hegg).

 

Se Yeshua tivesse violado as legítimas tradições orais de seus antepassados, com certeza isto seria usado para acusá-lo. Basta ler todos os evangelhos para se constar que em nenhum momento os opositores de Yeshua tiveram êxito em lhe formular uma acusação que tivesse procedência. Quando esteve preso perante o Sanhedrin (Sinédrio), tiveram que apresentar testemunhas falsas para tentar incriminá-lo e, mesmo assim, não conseguiram achar nenhuma culpa que o incriminasse (Matityahu/Mateus 26:59-60). Yeshua não foi condenado por ter violado a Torá ou a tradição oral, mas sim por ter se declarado o Mashiach, o Filho de Elohim (Yochanan Marcus/Marcos 14:61-62).

Conveniente destacar: Yeshua não era refratário às tradições, mas as tradições que ele observava não eram necessariamente iguais às dos fariseus. Com efeito, há tradições que deturpam as Escrituras, sendo lógico que o Mashiach as rejeitasse.

Por outro lado, existem tradições legítimas e benéficas como, por exemplo, a de orar pelo menos três vezes ao dia, nos períodos da manhã, tarde e noite. Caso Yeshua houvesse criticado as tradições legítimas, Sha’ul (Paulo) seguiria o mesmo caminho. Entretanto, a B’rit Chadashá (Aliança Renovada, “Novo Testamento”) aponta Sha’ul defendendo certas tradições:

“Três dias depois, Sha’ul [Paulo] convocou uma reunião com os líderes judeus locais. Quando estes se reuniram, ele lhes disse: ‘Irmãos, embora eu não tenha feito nada contra o nosso povo nem contra as tradições de nossos pais, fui feito prisioneiro em Yerushalayim [Jerusalém] e entregue aos romanos’.” (Ma’assei Sh’lichim/Atos 28:17).

“Portanto, irmãos, permaneçam firmes; apeguem-se às tradições que lhes foram ensinadas por nós...” (Tessalonissayah Beit/2ª Tessalonicenses 2:15).

 

Epifânio de Salamina, no século IV, escreveu que os nazarenos guardavam os costumes judaicos consagrados na tradição:

Os nazarenos não diferem essencialmente dos outros [referindo-se aos judeus ortodoxos], pois praticam os mesmos costumes e as mesmas doutrinas prescritas pela Lei judaica [a Torá], com a diferença que eles [os nazarenos] creem no Messias [Yeshua ou Jesus].” (En Contra de las Herejías, Panarion 29, 7).

 

Especialista em História do Cristianismo no primeiro século, Marcel Simon também escreveu que os nazarenos observavam os costumes judaicos:

 “Eles [referindo-se aos nazarenos] se caracterizam essencialmente por seu forte apego aos costumes judaicos.” (Judeo-cristianismo, pg. 47-48).

 

Ao estudar o pensamento de Yeshua acerca da Lei Oral, concluiu o rabino nazareno James Trimm:

“Yeshua parece ter também aceitado as ‘tradições de nossos pais’, que foram passadas oralmente.” (Nazarenes and the Oral Law, publicado em Nazarene Space).

 

Assim, temos que tanto Yeshua quanto Sha’ul, que era parush (Atos 23:6), apoiavam as tradições, excetuando-se, obviamente, aquelas que contrariam as Escrituras. Com efeito, o Mashiach criticou determinadas tradições:

“Portanto, mediante a tradição perpetuada por vocês, anula-se a Palavra de Elohim!” (Yochanan Marcus/ Marcos 7:13).

“Eles [os fariseus] amarram cargas pesadas nos ombros das pessoas...” (Matityahu/Mateus 23:4).

 

De fato, existem no Talmud muitas leis rabínicas que são contrárias aos ensinamentos do Mashiach e, em decorrência, não devem ser observadas.

Por conseguinte, as leis consignadas no Talmud devem ser analisadas à luz das Escrituras. Algumas delas serão compatíveis com a Bíblia, quer seja com suas regras explícitas, quer seja com suas regras implícitas, quer seja com os princípios (escritos ou não-escritos) extraídos da Palavra do ETERNO. Por outro lado, há muitas tradições e normas registradas no Talmud que devem ser rejeitadas, porquanto antagônicas com as normas bíblicas, explícitas ou implícitas.

Em síntese, ao seguir tanto a Torá escrita quanto às tradições orais que se harmonizam com as Escrituras, Yeshua situou-se ao lado da doutrina dos p’rushim (fariseus), e não dos ts’dukim (saduceus).

Os p’rushim ensinam que Elohim controla o destino de todos (Josefo, ob.cit., pg.1134). Em oposição, os ts’dukim (saduceus) “negam absolutamente o destino e creem que, como Deus é incapaz de fazer o mal, Ele não se incomoda com o que os homens fazem” (Josefo, ob.cit., pg.1134). Diante desta divergência, Yeshua se posiciona do lado dos p’rushim (fariseus), ao lecionar que Elohim está no controle de tudo o que se passa no mundo:

“Não são os pardais vendidos por quase nada, cinco por dois assárions? E nenhum deles foi esquecido por Elohim. Todos os cabelos de sua cabeça estão contados! Não tenham medo; vocês valem mais que muitos pardais!” (Lucas 12:6-7).

“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?

“Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?

E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?

E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;

E eu vos digo que nem mesmo Sholomoh [Salomão], em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.

Pois, se Elohim assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?

Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos?

(Porque todas estas coisas os gentios procuram). De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas;

Mas, buscai primeiro o Reino de Elohim, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.

Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Matityahu/Mateus 6:25-34).

 

Apesar de Elohim estar no controle de todas as coisas, ensinavam os p’rushim (fariseus) que “depende de nós fazer o bem ou o mal” (Josefo, ob.cit., pg. 1134), ou seja, enfatizavam o livre arbítrio do ser humano. Em sendo o judaísmo rabínico sucessor do movimento farisaico, vale citar o pensamento de Moshé Ben Maimon (conhecido como Maimônides), que possui viés nitidamente parush:

“A liberdade de escolha foi dada a cada homem: se ele decide tomar o caminho das boas obras e da justiça, tal habilidade já está em seu poder; e se ele decide tomar o caminho da maldade, a habilidade para tal também já está em seu poder.

Este conceito é o princípio fundamental e um pilar para a Torá e seus mandamentos. Se D’us decretasse que uma pessoa seria boa ou ímpia antes de sua existência, ou se existisse alguma coisa pré-determinada nos céus que influenciasse a pessoa a tomar um certo caminho na vida, como D’us poderia nos dar mandamentos através dos profetas tais como “façam isso” e “não façam aquilo”? Que lugar a Torá teria em nossas vidas? E por qual critério de justiça D’us puniria o ímpio e recompensaria o justo?” (Mishnê Torá, Teshuvá 5:1-3).

 

De igual modo, Yeshua enfatizava a liberdade de escolha do homem em optar por qual caminho a seguir.  O Salmista falou que existem dois caminhos, devendo o homem decidir por trilhar o caminho do justo ou o do ímpio (Tehilim/Salmos 1, na íntegra). Yeshua também usa a mesma figura de linguagem (“o caminho”):

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. E porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.” (Matityahu/Mateus 7:13-14).

 

E qual é o caminho que leva à vida? É a Torá!!!

Felizes são aqueles cujo caminho da vida é irrepreensível, que vivem pela Torá de YHWH.” (Tehilim/Salmos 119:1).

 

Infere-se das lições do Mashiach que este acreditava que o homem tinha a liberdade de escolher qual o caminho a seguir, ou seja, o Mashiach ensinou o conceito farisaico de livre arbítrio. A predestinação ensinada pelos calvinistas é totalmente contrária às Escrituras.

À luz do Judaísmo farisaico, defendido por Yeshua, o ETERNO está no controle de tudo o que se passa no mundo, quer seja dos homens quer seja dos animais. Não obstante, esta soberania de YHWH não exclui o livre arbítrio humano. É o que consta da Mishná:

Tudo está previsto, e o homem tem o seu livre arbítrio.” (Avot 3:19).

 

Mister citar o comentário de Irving M. Bunin acerca do referido texto de Avot:

“Na realidade, Rabi Akiva toca num dos problemas mais espinhosos da teologia judaica: a onisciência ou o conhecimento prévio do Todo-Poderoso versus livre-arbítrio do ser humano. Quando dizemos que Ele sabe tudo, queremos dizer não somente o passado e o presente, mas também o futuro – antes que ele ocorra. Para muitos, isto conflita com o livre-arbítrio humano. Se o Todo-Poderoso já sabia ontem que eu iria pecar, então que outra escolha eu poderia ter? Minha ação não está predestinada? Na nossa Mishná, Rabi Akiva afirma que ambos os princípios ocorrem.

O judaísmo, diz ele, aceita tanto a onisciência Divina quanto o livre-arbítrio humano. Como diz o Documento Sagrado: ‘Eu coloquei diante de ti a vida e a morte, a benção e a maldição; portanto, escolhe a vida’ [Devarim/Deuteronômio 30:19]. O Eterno já sabe qual será sua escolha e, no entanto, por mais paradoxal que isto possa parecer, você tem plena liberdade de opção.” (Ética do Sinai, 2009, página 185).

 

Yeshua, seguindo a linha farisaica, destacou o livre arbítrio do homem para escolher o bem ou o mal em inúmeras passagens. Fez a distinção, por exemplo, entre a árvore que dá o bom fruto e a que dá o mau fruto (Matityahu/Mateus 12:33-37). Na parábola do semeador, a semente em terra boa representa a pessoa que ouviu e optou por obedecer aos mandamentos (Matityahu/Mateus 13:1-23). Em sentido idêntico, ressalta-se a distinção entre os obedientes e os desobedientes nas parábolas do trigo e do joio, do tesouro escondido, da pérola, e da rede que apanha peixes bons e peixes ruins (Matityahu/Mateus 13:24-30 e 36-50). Sobre o livre arbítrio, confira-se ainda, por exemplo, Matityahu/Mateus 1:17; 7:24-27; Yochanan/João 3:16-19; 11:25; 14:21 e 23.   

Criam os p’rushim (fariseus) na imortalidade da alma, enquanto os ts’dukim (saduceus) lecionavam que as almas morrem com os corpos (Josefo, ob.cit. pg. 831 e 1134).

Pelo fato de crerem apenas na Torá, desprezando as tradições orais, os ts’dukim (saduceus) diziam que as almas sucumbem juntamente com o corpo. De fato, vários textos bíblicos dão margem ao entendimento de que com a morte física também há a morte da alma, ficando o espírito do homem “dormindo”, em estado inconsciente:

David dormiu com seus pais e foi sepultado na Cidade de David.” (Melachim Álef/1º Reis 2: 10)

Os mortos não louvam YHWH, nem os que descem ao silêncio.” (Tehilim/Salmos 115: 17).

Porque na morte não há lembrança de ti; no sheol quem te louvará?” (Tehilim/Salmos 6: 6; Sl 6:5 nas versões cristãs).

“Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respiração, morrem e voltam ao próprio pó.” (Tehilim/Salmos 104: 29).

Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco eles têm jamais recompensa, mas a sua memória ficou entregue ao esquecimento. Até o seu amor, o seu ódio e a sua inveja já pereceram e já não têm parte alguma neste século, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol. (...)

Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no sheol, para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma”. (Kohelet/Eclesiastes 9: 5, 6, 10).

 

Não obstante a interpretação dos ts’dukim (saduceus) no sentido de que a alma é perecível, criam os p’rushim (fariseus) na imortalidade da alma, consoante a interpretação das Escrituras e as tradições orais:

 “Eles [os fariseus] julgam que as almas são imortais, julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste — virtuosas ou viciosas — e que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida, e outras retornam a esta[3]” (Josefo, ob.cit. página 830).

 

De acordo com as Escrituras, quando os seres humanos morrem, todos vão para o sheol, palavra hebraica que significa “cova” ou “sepultura”, traduzida incorretamente para o português como “inferno” (releia os textos acima citados de Tehilim/Salmos 6: 6 ou Sl 6:5, nas versões cristãs, e Kohelet/Eclesiastes 9: 5, 6, 10). Não há distinção, os justos e os ímpios vão para o sheol (“sepultura”). Interessante observar que a palavra sheol, nas Escrituras em hebraico, nunca aparece com o artigo definido, denotando que sheol é um nome próprio, o nome de um lugar.

Consoante o Tanach, temos que:

1) as almas vão para o sheol (Tehilim 86:13; Kohelet/Eclesiastes 9:10; Tehilim/Salmos 6:6; Sl 6:5 nas versões cristãs);

2) a palavra sheol é contrastada com “céu” (Tehilim/Salmos 139:8; Amos/Amós 9:2 e Yov/Jó 11:8). O Talmud também firma o contraste entre o sheol e o Céu (Berachot, 28a);

3) o sheol pode ser evitado (Mishlei/Provérbios 15:24 e 23:14);

4) os ímpios retornarão para o sheol (Tehilim/Salmos 9:18, ou Sl 9:7 nas versões cristãs);

5) o Gan Eden (“paraíso”) foi lançado dentro do sheol (Yechezk’el/Ezequiel 31:16-18).

Diante de tais elementos, os p’rushim (fariseus) ensinavam que todos morrem e vão para o sheol. Porém, havia dois lugares distintos no sheol, um para os justos e outro para os ímpios.

Ficariam os justos no “seio de Avraham” (Abraão), local também conhecido como Gan Eden (traduzido para o português como Paraíso).

Em contrapartida, os ímpios ficariam em um local chamado Guey Hinom (geralmente traduzido por “inferno”), conhecido como “lago de fogo”. Guey Hinom (literalmente “Vale do Hinom”) foi um lugar em Yerushalayim (Jerusalém) em que os pagãos ofereciam seus filhos em sacrifício a Ba’al e a Molech (Divrei Hayamim Beit/2º Crônicas 28:3 e 33: 6 e Yirmeyahu/Jeremias 7:31-32; 19:2,6 e 32:35). No primeiro século, o Guey Hinom era o depósito de lixo da cidade, onde este era queimado constantemente. Daí, utilizava-se metaforicamente a imagem do Guey Hinom como sendo o local do castigo dos ímpios, que queimariam no “lago de fogo” tal como o lixo era incinerado no Guey Hinom.

Flávio Josefo, que era fariseu, cria na imortalidade da alma e na divisão de dois compartimentos do sheol, um para os justos e outro aos ímpios. Sobre o tema escreveu o rabino James Trimm:

“Josefo dá um tratamento muito mais longo para o Sheol (ou ‘Hades’)

(...).

Neste material, Josefo descreve o Sheol como tendo dois compartimentos. Um para os justos, que ele chama de ‘o seio de Abraão’; o outro é para os injustos. Os dois estão separados por ‘um abismo profundo e grande’, que ele diz que ‘está fixado entre eles’. Ele o descreve como um lugar ‘onde as almas dos homens estão confinadas até que em uma estação [época] própria, que Deus tem determinado, Ele promoverá a ressurreição de todos os homens’.” (Nazarene Theology, Institute for Nazarene Jewish Studies, 2007, página 391).

 

Quanto a este tópico acerca da mortalidade ou imortalidade da alma, percebe-se que os ensinos de Yeshua são totalmente compatíveis com a doutrina dos fariseus. Yeshua seguiu o estilo farisaico ao crer na imortalidade da alma, na consciência após a morte e na divisão do sheol (“sepultura”/lugar dos mortos) em dois compartimentos distintos, divididos por um grande abismo:

“Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente.

Havia também um certo mendigo, chamado El’azar [Lázaro], que jazia cheio de chagas à porta daquele;

E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas.

E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Avraham [Abraão]; e morreu também o rico, e foi sepultado.

E no sheol, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Avraham [Abraão], e El’azar [Lázaro] no seu seio.

E, clamando, disse: Pai Avraham [Abraão], tem misericórdia de mim, e manda a El’azar [Lázaro], que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.

Disse, porém, Avraham [Abraão]: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e El’azar [Lázaro] somente males; e agora este é consolado e tu atormentado.

E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá.

E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai

Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.” (Lucas 16:19-28).

 

Yeshua, afinado com a concepção farisaica, declarou que os justos vão para o Gan Eden (geralmente traduzido por “paraíso”):

“E disse-lhe Yeshua: ‘Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Gan Eden’.” (Lucas 23:43).

 

Compare a lição de Yeshua com a Mishná:

“Os homens descarados irão para o Guey Hinom, e os recatados para o Gan Eden.” (Avot 5:20).

 

Tal como os fariseus, Yeshua fala sobre o Guey Hinom:

“Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no Guey Hinom.

E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no Guey Hinom.” (Matityahu/Mateus 5:29-30).

“Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do Guey Hinom?” (Matityahu/Mateus 23:33).

“Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no Guey Hinom; sim, vos digo, a esse temei.” (Lucas 12:15).

 

Yeshua também associa o Guey Hinom ao fogo, que é um ensino tipicamente farisaico:

“E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o Guey Hinom, para o fogo que nunca se apaga, onde o verme não morre, e o fogo nunca se apaga.

E, se o teu pé te escandalizar, corta-o; melhor é para ti entrares coxo na vida do que, tendo dois pés, seres lançado no Guey Hinom, no fogo que nunca se apaga, onde o verme não morre, e o fogo nunca se apaga.

E, se o teu olho te escandalizar, lança-o fora; melhor é para ti entrares no Reino de Elohim com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do Guey Hinom, onde o verme não morre, e o fogo nunca se apaga.” (Yochanan Marcus/Marcos 9:43-48). Observação: Yeshua está se reportando a Yeshayahu/Isaías 66:24).

 

A expressão “lago de fogo”, manejada pelos p’rushim (fariseus), é usada por Yochanan (João):

“Então, a Morte e o sheol foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte – o lago de fogo.

E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.” (Guilyana/Apocalipse 20:14-15).

 

Se de um lado os ts’dukim (saduceus) não acreditavam em ressurreição, os p’rushim (fariseus) defendiam justamente o contrário (Josefo, ob.cit., página 1134).

O Judaísmo rabínico, sucessor do movimento farisaico, considera que a doutrina da ressurreição é essencial ao judaísmo:

“Estes não têm parte no ‘olam habá’ [o mundo vindouro]: aqueles que dizem que a ressurreição dos mortos não pode ser inferida da Torá...” (Mishná Sanhedrin 10:1).

 

Mais uma vez Yeshua se posiciona ao lado da doutrina dos p’rushim, ensinando acerca da ressurreição:

“Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.” (Yochanan/João 11:25).

 “E que os mortos hão de ressuscitar também o mostrou Moshé [Moisés] junto da sarça, quando chama YHWH de Elohim de Avraham [Abraão], Elohim de Yits’chak [Isaque], e Elohim de Ya’akov [Jacó].

Ora, Elohim não é Elohim de mortos, mas de vivos; porque para Ele todos estão vivos.” (Lucas 20:37-38).

“E, acerca da ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Elohim vos declarou, dizendo:” (Matityahu/Mateus 22:31).

 

A própria ressurreição de Yeshua comprova a doutrina de que um dia todos os mortos ressuscitarão. Confiram-se os seguintes textos: Mc 12:25,26; Lc 20:35; At 2:31, 4:2, 17:32; I Co 15:12-53; Hb 11:35; Rm 1:4 e Ap 20:26, dentre outros.

Outro aspecto de divergência entre os ts’dukim (saduceus) e os p’rushim (fariseus) reside no fato de somente estes últimos acharem que os homens seriam castigados ou recompensados após a morte:

“Eles [os fariseus] julgam que as almas são imortais, julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste — virtuosas ou viciosas — e que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida, e outras retornam a esta[4]” (Josefo, ob.cit. página 830).

 

Tal conceito é bastante claro na Mishná:

“Todo aquele que possui as três qualidades que se vão enumerar é um discípulo de Avraham [Abraão], nosso pai; o que possuir os vícios opostos é um discípulo de Bilam [Balaão], o ímpio. O bom olhar, a humildade e a abnegação são características dos discípulos de Avraham [Abraão]. O mau olhar; o orgulho e a ambição são as características dos discípulos de Bilam [Balaão].

Qual é a diferença entre o destino reservado aos discípulos de Avraham [Abraão] e o que está guardado para os discípulos de Bilam [Balaão]?

Os primeiros gozam das felicidades deste mundo, e terão parte na felicidade do mundo vindouro [vida futura], conforme se lê: ‘reservarei uma boa herança aos que me amam e encherei os seus tesouros’. Mas os discípulos de Bilam [Balaão] terão como punição o Guey Hinom e serão precipitados no abismo, conforme se lê: ‘e tu, Elohim, os precipitarás no abismo da destruição; homens sanguinários e pérfidos não atingiram a metade dos teus dias. Eu, ao contrário, ponho a minha confiança em Ti’.” (Avot 5:19).

 

Mais uma vez Yeshua possui entendimento alinhavado com o dos p’rushim, ao destacar o sistema de retribuição aos justos e aos ímpios. O Mashiach dissertou que no Grande Julgamento o Filho do Homem se assentará no trono glorioso e separará as ovelhas (os justos) dos bodes (os ímpios). Os primeiros receberão uma herança, enquanto os segundos irão para o castigo eterno (Matityahu/Mateus 25:31-46). Citam-se ainda outros textos:

“Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas.” (Lucas 6:23).

“E, eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra.” (Guilyana/Apocalipse 22:12).

“E serás bem-aventurado; porque eles não têm com que to recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos.” (Lucas 14:14).

(Leia-se, ainda, I Co 3:8 e 14; 2 Jo 1:8 e Cl 3:24).

 

Sha’ul (Paulo) declarou que os ts’dukim (saduceus) não criam em ressurreição, em anjos e em espíritos, ao passo que os p’rushim (fariseus) os reconheciam (Ma’assei Sh’lichim/Atos 23:8).

O fariseu Flávio Josefo escreveu sobre a existência de demônios:

“Vi um judeu, chamado Eleazar, livrar diversos possessos, na presença do imperador Vespasiano, de seus filhos e de vários oficiais e soldados. Ele prendia ao nariz do possesso um anel no qual estava fincada uma raiz, a mesma de que Salomão se servia para aquele fim. Logo que o demônio a cheirava, arremessava o doente por terra e o abandonava. Ele dizia então as mesmas palavras que Salomão havia deixado por escrito e, fazendo menção desse príncipe, proibia ao demônio voltar.” (Ob.Cit., página 351).

 

O Talmud retrata o ministério de expulsão de demônios exercido pelo rabino Chanina Ben Dosa, que viveu no primeiro século. No episódio, o rabino encontra a rainha dos demônios:

“Que nenhum homem saia sozinho à noite [...] pois Igrat, filha de Mahalat, e dezoito milhares de anjos destruidores estão à espreita, e cada um deles tem força para atacar... Certa feita, ela encontrou R. Chanina Ben Dosa e lhe disse:

Não houvesse uma recomendação do Céu, [dizendo] ‘Afaste-se de R. Chanina Ben Dosa...’, eu o teria ferido.

Ele lhe disse:

‘Como é tão grande a estima que me têm no Céu, ordeno-te que jamais voltes a passar por um lugar habitado’.” (Pesachim 112b).

 

Quanto à questão acerca da existência ou não de demônios, Yeshua não só cria em demônios, tal qual os p’rushim, como também os expulsava:

“E a sua fama correu por toda a Ashur [Assíria]; e traziam-lhe todos os que padeciam acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos, e ele os curava.” (Matityahu/Mateus 4:24).

“E curou muitos que se achavam enfermos de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios, porém não deixava falar os demônios, porque o conheciam.” (Yochanan Marcus/Marcos 1:34).

“E convocando os seus doze talmidim [discípulos], deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curarem enfermidades.” (Lucas 9:1).

“E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome, expulsarão demônios...” (Yochanan Marcus/Marcos 16:17).

 

Sobre o ministério exorcista de Yeshua, destacam-se, dentre tantos, os seguintes textos: Mt 8:16, 28-34; 12:43-45; 9:32-33; 17:14-21; Mc 1:21-27; 3: 11-12; 6:12; 7:29-30; 9:14-29, Lc 4:41 etc.

Diante de todo o exposto, conclui-se que os ensinos de Yeshua estavam em conformidade com o dos p’rushim (fariseus), em relação a todas as características apresentadas por Flávio Josefo, acima analisadas. No tocante às tradições, Yeshua somente seguiu aquelas em harmonia com as Escrituras, refutando as antibíblicas.

Continua...

 

 


[1] Já que em hebraico não existem vogais, apenas consoantes, o nome conhecido como “Yehoshua” pode ser lido como “Yahushua”.

[2] Vide nota anterior.

[3] Este retorno se refere à ressurreição, e não à reencarnação.

[4] Este retorno refere-se à ressurreição, e não à reencarnação.

 

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