PARTE III ORIGEM DOS ESSÊNIOS

21/08/2013 15:09

PARTE III

ORIGEM DOS ESSÊNIOS

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Não se sabe a exata origem dos essênios, mas a maioria dos estudiosos leciona que estes, tal como os p’rushim (fariseus), derivam dos chassidim (piedosos), grupo religioso devotado à Torá e que teve participação importante ao apoiar a revolta dos macabim (macabeus), em torno de 167 a 142 A.C.

Em 167 A.C., o idólatra rei da Síria Antíoco Epifâneo conquistou Yerushalayim (Jerusalém) e adotou severas medidas para promover a helenização em Yisra’el, determinando a destruição das Escrituras Sagradas e proibindo a observância da Torá, a guarda do shabat (sábado), o culto a YHWH, a circuncisão e o cumprimento das leis alimentares, ou seja, impediu que os israelitas observassem os mandamentos instituídos por Elohim. Para aviltar a religião judaica e promover a idolatria, Antíoco roubou os utensílios sagrados do Beit Hamikdash (Templo) em Yerushalayim (Jerusalém) e lá instalou uma estátua do deus grego Zeus. Ordenou ainda que os judeus renunciassem a fé em YHWH e passassem a adorar ídolos.

Eis o relato do historiador Flávio Josefo:

“... ele [Antíoco Epifâneo] voltou a Jerusalém e não poupou nem mesmo os que o acolheram na esperança de que ele não faria nenhum ato de hostilidade. Sua insaciável avareza fez com que ele não temesse violar-lhes também a fé, despojando o Templo das muitas riquezas de que, sabia ele, estava cheio. Tomou os vasos consagrados a Deus, os candelabros de ouro, a mesa sobre a qual se punham os pães da proposição e os turíbulos. Levou até mesmo as tapeçarias de escarlate e de linho fino e pilhou tesouros que estavam escondidos havia muito tempo. Afinal, nada deixou lá. E, para cúmulo da maldade, proibiu aos judeus oferecer a Deus os sacrifícios ordinários, como a sua lei [Torá] os obrigava.

Depois de saquear toda a cidade, mandou matar uma parte dos habitantes e levou dez mil escravos com suas mulheres e filhos. Mandou queimar os mais belos edifícios, destruiu as muralhas e construiu, na Cidade Baixa, uma fortaleza com grandes torres, as quais dominavam o Templo, e lá colocou uma guarnição de macedônios, entre os quais estavam vários judeus, tão maus e ímpios que não havia males que não infligissem aos habitantes. Mandou também construir um altar [idólatra] no Templo e ordenou que lá se sacrificassem porcos, o que é uma das coisas mais contrárias à nossa religião. Obrigou então os judeus a renunciar o culto ao verdadeiro Deus e a adorar os seus ídolos, e ordenou que se construíssem templos para eles em todas as cidades, determinando que não se passasse um dia sem que lá se imolassem porcos. Proibiu também aos judeus, sob graves penas, circuncidar os filhos, e nomeou fiscais para saber se eles estavam observando as suas determinações e as leis que ele impunha e obrigá-los a isso, caso recusassem obedecer.” (Ob.Cit. páginas 545 e 546).

 

Também é narrada a impiedade de Antíoco Epifâneo no livro de Macabim (Macabeus):

“Então o rei Antíoco publicou para todo o reino um edito, prescrevendo que todos os povos formassem um único povo e  que abandonassem suas leis particulares. Todos os gentios se conformaram com essa ordem do rei, e  muitos de Yisra’el adotaram a sua religião, sacrificando aos ídolos e violando o shabat [sábado].

Por intermédio de mensageiros, o rei enviou à Yerushalayim [Jerusalém] e às cidades de Yehudá [Judá] cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra, suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no Beit Hamikdash [Templo], violassem os shabatot [sábados] e as festas, profanassem o santuário e tudo que é santo, erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos, deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira a obrigarem-nos a esquecer a Torá e a transgredir seus mandamentos.

Todo aquele que não obedecesse à ordem do rei seria morto”. (Macabim Álef/I Macabeus 1:41-50).

 

Afiança Flávio Josefo que a maioria dos israelitas cedeu à pressão de Antíoco Epifâneo e obedeceu às suas ordens. Não obstante, uma minoria de judeus piedosos permaneceu fiel à Torá e ao ETERNO, preferindo a morte à idolatria. Citam-se os testemunhos de Josefo e de Macabim:

“A maior parte do povo obedeceu, voluntariamente ou por medo, mas essas ameaças não puderam impedir aos que possuíam virtude e generosidade de observar as leis de seus pais. O cruel príncipe os fazia morrer por meio de vários tormentos. Depois de os mandar retalhar a golpes de chicote, a sua horrível desumanidade não se contentava em fazê-los crucificar, mas, enquanto ainda respiravam, fazia enforcar e estrangular perto deles as suas mulheres e os filhos que haviam sido circuncidados. Mandava queimar todos os livros das Sagradas Escrituras e não poupava ninguém na casa em que os encontrava.” (Flávio Josefo, Ob.Cit., página 546).

“As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei, com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão.

Numerosos foram os israelitas que tomaram a firme resolução de não comer nada que fosse impuro, e preferiram a morte antes que se manchar com alimentos; não quiseram violar a santa Torá e foram trucidados.

Caiu assim sobre Israel uma imensa cólera.” (Macabim Álef/I Macabeus 1:60-64).

 

Estes judeus zelosos, extremamente devotados ao ETERNO e que não obedeceram às ordens iníquas de Antíoco Epifâneo, eram chamados de chassidim (piedosos), grupo precursor dos essênios.

Dentre os judeus zelosos da Torá, estava o kohen (sacerdote) Matityahu (Matatias) que se recusou a oficiar no profanado Beit Hamikdash (Templo). Ao ser convocado para promover sacrifícios pagãos, Matityahu recusou a ordem e acabou por matar um emissário de Antíoco e um kohen (sacerdote) ímpio que estava disposto a realizar o sacrifício pagão. Matityahu (Matatias) reuniu seus filhos e iniciou um movimento de luta armada contra o domínio estrangeiro, formando um exército que abateu os ímpios. Esta resistência judaica é conhecida como “a Revolta dos Macabim (Macabeus)”.

Uniram-se a Matityahu os chassidim (piedosos), “homens valorosos de Yisra’el, cada um deles devotado à Torá” (Macabim Álef/I Macabeus 1:42). Matityahu e os chassidim fizeram incursões pelo país e destruíram os altares pagãos, circuncidaram os meninos à força, recuperaram a Torá das mãos dos gentios e não permitiram o triunfo do helenismo idólatra (Macabim Álef/I Macabeus 1:45-48). Sobre a participação dos chassidim na “Revolta dos Macabim”, confiram-se ainda: Macabim Álef/1º Macabeus 7:13, 16; e Macabim Beit/2º Macabeus 14:6).

Logo, ainda que não se saiba a origem exata dos essênios, há quase que um consenso entre os pesquisadores no sentido de que o grupo religioso é uma derivação posterior dos chassidim.

Novas luzes foram lançadas acerca da história dos essênios com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto. Em 1947, foram encontrados nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, diversos textos antigos. Tal fato levou a inúmeras expedições arqueológicas em diversas grutas durante o final dos anos 40 até a exploração da gruta de nº 11, de 1956 a 1977. Acharam-se centenas de textos e fragmentos em hebraico, aramaico e grego contendo porções de todos os livros do Tanach (Primeiro Testamento), excetuando-se o livro de Ester, bem como foram localizados materiais religiosos extrabíblicos (livros apócrifos livros da comunidade de Qumran). Estes textos do Mar Morto datam, aproximadamente, do período de 200 A.C. a 68 D.C. Majoritariamente, os eruditos apontam que os essênios que habitavam em Qumran foram os escritores dos citados Manuscritos, o que nos concede indícios acerca da controvertida origem da seita judaica.

Ao analisar os Manuscritos conhecidos como Regra de Damasco e Comentário de Havakuk (Habacuque), assim se pronunciou o historiador Geza Vermes sobre a história dos essênios:  

“De acordo com a Regra de Damasco, o surgimento da seita [dos essênios] ocorreu ‘390 anos’ depois da destruição do Primeiro Templo, quando uma ‘raiz’ brotou de ‘Israel e Aarão’. Esse grupo de sacerdotes e leigos ‘perambulou sem rumo’ por vinte anos até que recebeu um guia enviado por Deus, ‘o Mestre da Justiça’. Uma facção da congregação designada como ‘os que buscam as coisas fáceis’ se rebelou contra ele, passando a seguir ‘o Mentiroso’, que os fez ficar à deriva em matéria de doutrina, de moral e de calendário litúrgico. Segue-se a isso um conflito violento, e o Mestre e aqueles que permanecem fiéis a ele foram para o exílio ‘na terra de Damasco’, onde estabeleceram a ‘nova Aliança’. Ali morreu o Mestre. Os ímpios, por outro lado, continuaram a reger em Jerusalém até encontrarem a Vingança divina nas mãos ‘do principal rei da Grécia’.

O Comentário de Habacuc também se refere a uma defecção de discípulos do Mestre para o Mentiroso, ou ‘Sacerdote Ímpio’. Esse homem é descrito com grande número de detalhes. Ele fora chamado pelo ‘nome da verdade’ antes de se tornar dirigente de Israel e se deixar corromper pelo poder e pela riqueza. Ele reconstruiu e profanou Jerusalém e o santuário. Ele ‘puniu’ o Mestre e sua congregação. Ele os perseguiu e os confrontou em seu refúgio em seu Dia do Perdão. Ele foi punido por Deus, que o entregou a inimigos ‘que se vingaram em seu corpo de carne’. Também há notícias de seus sucessores, os ‘últimos sacerdotes de Jerusalém’, que são acusados de espoliar o povo. As riquezas por eles acumuladas, no entanto, ser-lhe-iam tomadas pelos ‘Kittim’ [alusão aos romanos], os novos conquistadores do mundo divinamente indicados.” (Jesus e o Mundo do Judaísmo, edições Loyola, 1996, página 150).

 

Como se observa da transcrição acima, os essênios ficaram no deserto durante o período de 20 (vinte) anos até encontrarem uma pessoa denominada “o Mestre da Justiça”, que passou a liderá-los. Uma parte do grupo não quis segui-lo, ocasionando a cisão da seita, e os dissidentes passaram para o lado de um personagem identificado como “o Mentiroso” e “Sacerdote Ímpio”. Então, quem são o Mestre da Justiça e o Sacerdote Ímpio? Existem muitas teorias a respeito e a análise de cada uma delas extrapolaria o objetivo deste trabalho, o que nos impele a traçar um perfil geral da tese majoritária, versando superficialmente sobre outras teses plausíveis, descartando-se desde já as absurdas. Cabe destacar que as teorias existentes se valem do seguinte método: analisam as características do Sacerdote Ímpio e do Mestre da Justiça descritas nos Manuscritos do Mar Morto e procuram identificar quais são os personagens históricos portadores daquelas características.

Defende a teoria predominante que o Sacerdote Ímpio era Jonatas Macabeu (e também Simão, seu sucessor, ensinam alguns) e que o Mestre da Justiça foi um sacerdote da linhagem de Tsadok (Zadoque), que se revoltou com o sacerdócio ilegal do primeiro. Explica-se.

A “Revolta dos Macabeus” teve início com Judas Macabeu, que liderou sua família e os chassidim contra as forças do Império Selêucida de Antíoco Epifâneo. Com a morte de Matatias em 166 A.C, seu filho Judas Macabeu passa a liderar os judeus na luta contra os estrangeiros, conseguindo retomar Yerushalayim (Jerusalém) e reconsagrar o Beit Hamikdash (Templo), instituindo-se a festa conhecida como Chanuká. Após a morte de Judas Macabeu (160 A.C), seu irmão Jônatas Macabeu assumiu o governo, que perdurou de 160 a 143 A.C. Este Jonatas que é identificado pela maioria dos especialistas como “o Sacerdote Ímpio”. Por quê?

Porque Jonatas celebrou acordo com o rei sírio Alexandre Balas, filho de Antíoco Epifâneo, sendo por este nomeado para o cargo de kohen hagadol (sumo sacerdote) (Macabim Álef/1º Macabeus 10:18-21). Ainda que Jonatas fosse de família sacerdotal, sua nomeação para o cargo foi ilegal, porque um pagão não poderia escolher quem seria o sumo sacerdote do ETERNO e tradicionalmente os sumos sacerdotes descendiam da família dos oníadas. Assim, Jonatas passou a exercer tanto o poder político quanto o religioso, e sua nomeação ilícita causou o descontentamento de judeus piedosos, que passaram a reputá-lo como “o Sacerdote Ímpio”. Os piedosos deixaram Yerushalayim (Jerusalém), porque achavam que eram ilegais a adoração e os sacrifícios no Templo apresentados pelo Sacerdote Ímpio e, então, passaram a vagar durante 20 (vinte) anos no deserto até encontrarem o Mestre da Justiça. Por sua vez, o Mestre da Justiça seria um sacerdote descendente de Tsadok (Zadoque/Sadoc), sendo que este último foi amigo e sumo sacerdote do Rei David, chegando a ungir Shlomoh (Salomão) como rei. Também descontente com o sacerdócio ilegal de Jonatas, o Mestre da Justiça se une aos chassidim (piedosos) no deserto e fundam o grupo essênio de Qumran. Em linhas gerais, esta é a teoria majoritária acerca da origem da seita.

No mesmo sentido escreveu o preclaro pesquisador francês Jean Pouilly:

“A nomeação de Jônatas para o sumo sacerdócio, feita por Alexandre Balas em 152 (cf. 1 Mc 10, 15-21), deve ter sido considerada pelos judeus mais religiosos como ilegal. Ainda que nos atenhamos às informações de Flávio Josefo, segundo o qual a cidade vivera sete anos sem sumo sacerdote (AJ XX, 237), provavelmente o membro mais antigo do alto clero exerceu essa função durante esse lapso de tempo, sem ter oficialmente o título. Esse antigo sumo sacerdote, saído da linhagem sacerdotal dos oníadas e descendente de Sadoc [Tsadok], foi, pois, obrigado a ceder o poder religioso a Jônatas e deve ter-se reunido ao grupo conservador dos essênios, tomando entre eles o título de Mestre da Justiça.” (Qumrã: textos escolhidos,  Edições Paulinas, 1992, pp. 22-23).

 

A teoria é endossada por Geza Vermes:

“Nessa hipótese, o Mestre da Justiça, um sacerdote de afiliação sadoquita [descendente de Tsakok] embora obviamente oposto a Onias de Leontópolis, deve ter sido um contemporâneo de Jônatas. Sua identidade histórica, no entanto, ainda não está confirmada e não sou otimista quanto à melhoria desse estado de coisas. Seu grupo apoiou a causa macabéia até que Jônatas recebeu o ofício pontifical [sumo sacerdócio] de Alexandre Balas. Sua hostilidade aos Macabeus causou uma cisão nos quadros da comunidade e a ida para o exílio do Mestre e dos seus partidários. Pouco sabemos de sua carreira subsequente, nem mesmo como morreu.” (Ob.Cit., página 155).

 

Os comentaristas da Bíblia de Jerusalém apresentam a mesma tese:

“Jônatas é descendente de Joiarib, antepassado da primeira das vinte e quatro classes sacerdotais (cf.2.1.54). Quanto a Alexandre, soberano reconhecido, competia-lhe o direito de nomeá-lo (cf.7,9; 2Mc 4,24). Assim ficava excluída a família dos oníadas, da qual provinham tradicionalmente os sumos sacerdotes. Foi, sem dúvida, nessa ocasião que o filho de Onias III refugiou-se no Egito, onde fundou o templo de Leontópolis (cf. 2 Mc 1,1). Nas mesmas circunstâncias, outro sacerdote, o ‘Mestre da Justiça’, de quem fala o escrito essênio Documento de Damasco, refugiou-se em Qumrã – Jônatas inaugura uma dinastia de príncipes-sacerdotes, à semelhança de outras existentes na época. Com os seus sucessores, os Asmoneus, as preocupações políticas estarão acima das preocupações religiosas.” (Bíblia de Jerusalém, Paulus, 202, página 745).

 

Citam-se outros eruditos que atribuem a identidade do “Sacerdote Ímpio” a Jonatas Macabeu, o que supostamente desvenda o mistério do surgimento dos essênios: 1) J.T. Milk (Ten Years of Discovery, pgs. 84-87); 2) F.M. Cross (The Ancient Library of Qumran and Modern Biblical Studies, 1958, pgs.135-153); 3) P.Winter (Two Non-Allegorical Expressions in the Dead Sea Scrolls, 1959, pgs. 38-46); 4) R. de Vaux (Archeology and the Dead Sea Scrolls, 1973, pgs.116-117); 5) J. STARCKY e F.M. Abel (Les Libres des Maccabées, 1961, pg. 58); 6) G. Jeremias (Der Lehrer der Gerechtikgkeit, 1963, pgs. 36-78); 7) H. Stegemann (Die Entstehung der Qumrangemeneide, 1971); 8) M. Hengel (Judaism and Hellenism I, 1974, pgs. 224-227); 9) J. Murphy-O´Connor (The Essenes and the History, 1974, pgs. 215-244).

Uma segunda teoria não vislumbra que os essênios surgiram no período de Jonatas Macabeu (por volta do ano 160 a 143 A.C), o suposto “Sacerdote Ímpio”, mas sim que o nascedouro do grupo ocorreu durante o reinado de Alexandre Janeu (103 a 76 A.C), que seria o autêntico “Sacerdote Ímpio”.

Também descendente da dinastia dos hasmoneus (família dos “macabim”/macabeus), Alexandre Janeu assumiu o trono de Yisra’el e usurpou para si o cargo de kohen hagadol (sumo sacerdote), acumulando as funções políticas e religiosas durante os anos de 103 a 76 A.C.  O desempenho ilícito da função de kohen hagadol (sumo sacerdote) gerou a revolta de muitos judeus zelosos, que foram chacinados por Janeu:

“Ao mesmo tempo, Alexandre [Janeu], rei dos judeus, viu turbar-se o seu reino, pelo ódio que o povo tinha contra ele. No dia da festa dos Tabernáculos, quando se levam ramos de palmas e de limoeiros, ele preparava-se para oferecer sacrifício. O povo não se contentou de lhe lançar limões à cabeça, mas o ofendeu com palavras, dizendo que, tendo sido escravo, ele não merecia honra alguma e era indigno de oferecer sacrifícios a Deus. Ele ficou de tal modo enfurecido que mandou matar uns seis mil deles e em seguida reprimiu o esforço da multidão irritada com uma cerca de madeira que mandou fazer ao redor do Templo e do altar, e que se estendia até o lugar onde somente os sacerdotes têm direito de entrar.” (Flávio Josefo, Ob.Cit., páginas 615 e 616).

 

A matança narrada levou com que os próprios judeus passassem a lutar contra seu próprio rei Alexandre Janeu, e este, segundo aponta Flávio Josefo, matou aproximadamente 50 (cinquenta) mil judeus durante o período de seis anos.   Com o objetivo de se livrarem de Janeu, os judeus chegaram a pedir auxílio ao rei da Síria Demétrio Eucero para que lutasse contra Alexandre Janeu. Em uma batalha, Demétrio venceu Janeu e se retirou de Yisra’el, deixando a população judaica sozinha com seu ímpio rei e sacerdote Alexandre Janeu. Este, como medida de retaliação, promoveu a seguinte barbárie:

“... para vingar-se das ofensas que havia recebido, [Alexandre Janeu] usou contra eles de horrível crueldade: enquanto se entregava a um banquete com suas concubinas num lugar bastante elevado, de onde podia ver tudo, mesmo ao longe, fez crucificar cerca de oitocentos na sua presença e estrangular diante deles, enquanto ainda viviam, suas mulheres e filhos.” (Flávio Josefo, Ob.Cit. página 617).

 

Consoante as lições do rabino James Trimm, o episódio acima levou com que muitos p’rushim (fariseus) zelosos da Torá abandonassem a vida em Yerushalayim (Jerusalém) e se isolassem em Qumran, criando-se, assim, a seita dos essênios: 

“Parece que, neste momento, um grupo radical se separou dos fariseus. Este grupo ficou conhecido como os essênios. Este grupo foi liderado por uma figura conhecida por nós apenas como o ‘Mestre da Justiça’. O Mestre da Justiça estava em desacordo com uma figura referida simplesmente como o ‘Sacerdote Ímpio’, a quem a maioria dos estudiosos identifica com Alexandre Janeu.” (Origin of the Essenes, publicado por The Worldwide Nazarene Assembly of Elohim).

 

Assim, para o rabino James Trimm, os essênios são fariseus que se isolaram da vida social e religiosa em Yerushalayim (Jerusalém), instituindo uma nova seita do Judaísmo com uma maior rigidez da halachá, que é o conjunto de mandamentos rabínicos interpretativos dos mandamentos da Torá, dos costumes e tradições, objetivando servir de guia do modo de viver israelita. Eis os escólios do ínclito rabino nazareno:

“Os essênios descrevem sua origem desta forma:

‘... Nós nos separamos da maioria das pessoas e de toda a imundícia, e de sermos parte ou de irmos com eles nesses assuntos’ (4QMMT C:7-9).

(...)

Os essênios se separaram dos fariseus, porque eles sentiram que a halachá farisaica não era rigorosa o suficiente, e que, como resultado, o Templo estava sendo contaminado:

‘Eles [os fariseus] também contaminam o santuário, pois não separam o limpo do imundo de acordo com a Torá’ (Documento de Damasco 5, 6-7).” (Origin of the Essenes, publicado por The Worldwide Nazarene Assembly of Elohim).

 

Por mais que pareça sedutora a teoria do querido rabino James Trimm, no sentido de que os essênios surgiram na época do rei Alexandre Janeu (103 a 76 A.C), que seria o misterioso “Sacerdote Ímpio”, há um evidente erro neste raciocínio. Os Manuscritos do Mar Morto, que descrevem a comunidade de Qumran (os essênios), datam pelo menos do ano 150 A.C. Ora, se os essênios já existiam, na pior das hipóteses, desde o ano 150 A.C, fica claro que não surgiram quase 50 (cinquenta) anos depois, durante o período de Alexandre Janeu, que iniciou seu reinado em 103 A.C.

Podemos reinterpretar os fatos expostos pelo preclaro rabino James Trimm da seguinte forma: já havia sido constituído o grupo dos essênios antes de Alexandre Janeu. Quando este passou a praticar uma série de atrocidades, inclusive com o episódio da crucificação de 800 (oitocentas) pessoas, das quais provavelmente muitas eram da seita farisaica, uma parte dos p’rushim (fariseus) abandonou as atividades religiosas em Yerushalayim e se uniu aos essênios.

Há uma terceira teoria acerca da origem dos essênios que, ao contrário das outras, não atribui a identidade do “Sacerdote Ímpio” a Jonatas Macabeu (primeira corrente) ou a Alexandre Janeu (segunda corrente), mas sustenta que os Manuscritos do Mar Morto, ao usarem a expressão “Sacerdote Ímpio”, não estão se referindo a uma pessoa específica e sim a diversos Sumos Sacerdotes hasmoneus ao longo do tempo. É o que leciona uma das maiores autoridades no assunto, o professor espanhol Florentino García Martínez:

“Em substância, esta parte da hipótese considera a designação de ‘Sacerdote Ímpio não como o apelido atribuído a um Sumo Sacerdote’, mas como uma designação titular que se aplica aos vários Sumos Sacerdotes hasmoneus, desde Judas Macabeu até Alexandre Janeu, e segundo uma ordem cronológica precisa.” (Textos de Qumran, Vozes, 1995, página 41).

 

O grande problema desta terceira teoria está em identificar o primeiro “Sacerdote Ímpio” como Judas Macabeu, visto que: 1) Judas Macabeu não foi Sumo Sacerdote, razão pela qual há dificuldade em lhe atribuir o citado título; 2) a literatura judaica considera Judas Macabeu como um grande herói nacional, homem valoroso e cheio de virtudes e, por conseguinte, é difícil crer que tenha sido considerado “ímpio”. Seria até possível adaptar o terceiro teorema e dizer que existiram vários “Sacerdotes Ímpios” sucessivos, porém, o primeiro não poderia ser Judas Macabeu, e sim Jonatas.

Por todos os motivos declinados, consoante o estágio atual da arqueologia bíblica, parece mais plausível a primeira teoria exposta, que conta com o apoio da maioria dos especialistas no tema.

Continua...

 

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