A conversão do Rei Abgar: Um belo testemunho do primeiro século

16/07/2016 19:58

A conversão do Rei Abgar:

Um belo testemunho do primeiro século

 

Por Tsadok Ben Derech

 

Um dos relatos mais antigos sobre Yeshua HaMashiach pode ser encontrado nos escritos de Eusébio de Cesareia (265 a 339 D.C.), que teve acesso a documentos do primeiro século narrando a troca de correspondências entre Abgar, Rei de Edessa, e Yeshua.

Estão redigidas as cartas em Siríaco, dialeto do Aramaico, o que confirma a tese amplamente aceita de que a língua nativa de Yeshua era o Aramaico, apesar de, obviamente, falar Hebraico, idioma das Escrituras Sagradas e da liturgia sinagogal.

Segundo os arquivos históricos, o Rei Abgar, estando doente, enviou carta a Yeshua solicitando que este fosse até seu Reino, em Edessa, e o curasse da doença. Todavia, Yeshua afirmou que não poderia ir, mas que enviaria um de seus discípulos com esta missão. Após a morte de Yeshua, o discípulo Tadai vai a Edessa e se encontra com o Rei Abgar, curando-o de sua enfermidade e pregando os ensinamentos de Yeshua.

O Rei Abgar reconhece o testemunho de Yeshua, tornando-se o Reino de Edessa o primeiro a garantir a liberdade de religião aos discípulos de Yeshua, e estes foram protegidos de toda a sorte de perseguição. Por tal razão, Edessa se tornou um grande polo de expansão e desenvolvimento das atividades missionárias dos discípulos, inclusive pelo fato de os judeus nazarenos e os habitantes de Edessa falarem a mesma língua: o Aramaico. Com efeito, a proteção por parte do Rei e a facilidade de comunicação foram fatores essenciais que garantiram o florescimento da comunidade dos discípulos, e vários estudiosos afirmam que a Peshitta, o Novo Testamento Aramaico, foi compilada em Edessa.

Eis a história descrita por Eusébio, extraída, repita-se, de documentos do primeiro século:

“E um documento ensina também que Matay [Matias] - o que foi juntado à lista dos emissários em substituição a Yehudá [Judá/Judas] - e o outro que com ele teve a honra de disputar a sorte foram dignos de serem dos setenta. Diz-se ainda que também Tadai [Tadeu] era um deles, sobre este chega a nós um relato que exporei em seguida.

(...)

O relato acerca de Tadai [Tadeu] é como segue. A fama da divindade de nosso Senhor e Salvador Yeshua, o Messias, devido ao seu poder milagroso, alcançou a todos os homens, e com a esperança de cura de suas enfermidades e moléstias de toda espécie, atraía a inumeráveis pessoas que habitavam inclusive no estrangeiro, muito longe de Yehudá [Judeia].

Nestas condições se achava o rei Abgar, que reinava excelentemente sobre os povos do outro lado do Eufrates e tinha seu corpo destroçado por uma doença terrível e incurável para o poder humano. Assim que chegaram a ele notícias recorrentes sobre o nome de Yeshua e os milagres unanimemente testemunhados por todos, converteu-se em seu suplicante, enviando um mensageiro com uma carta na qual pedia para ver-se livre da enfermidade.

Mas Yeshua não atendeu de imediato a seu chamamento. Mesmo assim, fez-lhe a honra de uma carta de próprio punho e letra na qual prometia enviar-lhe um de seus discípulos que o curaria da enfermidade e ao mesmo tempo levaria a salvação para ele e para os seus.

Não passou muito tempo sem que Yeshua cumprisse sua promessa. Depois de sua ressurreição de entre os mortos e de sua ascensão aos céus, Tomá [Tomé], um dos doze emissários, movido por Elohim, enviou à região de Edessa Tadai [Tadeu] - que também era um dos setenta discípulos do Messias - como arauto e evangelista da doutrina do Messias, e por meio dele se cumpriu o que o Salvador havia prometido.

Temos de tudo isto testemunho escrito, tirado dos arquivos de Edessa, que naquele tempo era a corte. Nos documentos públicos que neles se guardam e que contém os feitos antigos e dos tempos de Abgar, encontra-se também o referido testemunho, conservado deste então e até hoje. Mas nada melhor do que ouvir as próprias cartas que tiramos dos arquivos e que, traduzidas do Siríaco [dialeto Aramaico], dizem textualmente como segue:

 

CÓPIA DA CARTA ESCRITA POR ABGAR, REI DE EDESSA, A YESHUA, E ENVIADA A YERUSHALAYIM [JERUSALÉM] PELO MENSAGEIRO ANANYAH [ANANÍAS].

‘Abgar, regente de Edessa, a Yeshua, o bom salvador que surgiu na região de Yerushalayim [Jerusalém], saudações:

Tem chegado a meus ouvidos notícias acerca de tua pessoa e de tuas curas, que, ao que parece, realizas sem empregar remédios ou ervas, pois pelo que se conta, fazes com que os cegos recobrem a visão e que os coxos andem; limpas os leprosos e retiras espíritos impuros e demônios; curas os que estão atormentados por longa enfermidade e ressuscitas mortos.

E eu, ao ouvir tudo isto de ti, pus-me a pensar que, de duas possibilidades uma: ou és Elohim, que descendo pessoalmente do céu realizas estas maravilhas, ou és Filho de Elohim, já que fazes tais obras.

Este é, pois, o motivo para escrever-te rogando-te que te apresses a vir a mim e curar-me do mal que me aflige. Porque também tenho ouvido que os judeus andam murmurando contra ti e querem fazer-te mal. Muito pequena é minha cidade, mas digna, e bastará para os dois’.

 

Esta é a carta que Abgar escreveu, iluminado então por um pouco de luz divina. Mas será bom que escutemos a carta que Yeshua enviou a ele pelo mesmo correio, carta de poucas linhas, mas de muita força, cujo teor é o que segue:

 

RESPOSTA DE YESHUA AO REI ABGAR, ATRAVÉS DO MENSAGEIRO ANANYAH [ANANÍAS].

‘Bem-aventurado tu, que creste em mim sem ter me visto. Porque de mim está escrito que os que me viram não crerão em mim, e que aqueles que não me viram crerão e terão a vida. Mas, acerca do que me escreves de ir para junto de ti, é necessário que eu cumpra aqui por inteiro minha missão e que, depois de havê-la consumado, suba novamente ao que me enviou.

Quando tiver subido, mandar-te-ei algum de meus discípulos, que sanará tua doença e trará a vida a ti e aos teus’.

 

A estas cartas estava anexado ainda, em Siríaco [dialeto do Aramaico], o seguinte:

‘Depois da ascensão de Yeshua, Yehudá [Judá], chamado também Tomá [Tomé], enviou-lhe como emissário a Tadai [Tadeu], um dos setenta, o qual chegou e se hospedou na casa de Tobit [Tobias], filho de Tobit [Tobias]. Quando se espalhou a notícia sobre ele, avisaram a Abgar que havia chegado ali um emissário de Yeshua, como tinha sido descrito na carta.

Começou, pois, Tadai [Tadeu], com o poder de Elohim, a curar toda enfermidade e fraqueza, ao ponto de todos se admirarem. Mas, quando Abgar ouviu falar dos prodígios e maravilhas que operava e de que também curava, veio-lhe a suspeita de se seria o mesmo do qual Yeshua falava na carta, ali onde dizia: ‘Quando tiver subido, te mandarei algum de meus discípulos, que sanará tua doença’.

Fez, pois, chamar a Tobit [Tobias], em cuja casa se hospedava, e lhe disse: Tenho ouvido dizer que veio certo homem poderoso e que se aloja em tua casa. Traga-o a mim. Foi-se Tobit [Tobias] para junto de Tadai [Tadeu] e lhe disse: O monarca Abgar mandou chamar-me e me ordenou que te levasse até ele para que o cures; e Tadai [Tadeu] respondeu-lhe: Subirei, já que fui enviado a ele com poder.

No dia seguinte Tobit [Tobias] madrugou, e tomando consigo a Tadai [Tadeu], foi até Abgar. Entrou Tadai [Tadeu], estando ali presentes de pé os nobres do rei, e no momento de fazer sua entrada, uma grande visão apareceu a Abgar no rosto do emissário Tadai [Tadeu]. Ao vê-la, Abgar se prosternou ante Tadai [Tadeu], deixando em suspenso todos os que o rodeavam, pois eles não haviam contemplado a visão, que só se mostrou a Abgar.

Este perguntou a Tadai [Tadeu]: És tu em verdade discípulo de Yeshua, o Filho de Elohim, o que me disse: Mandar-te-ei algum de meus discípulos que te curará e te dará vida?

E Tadai [Tadeu] respondeu: Porque é muito grande a tua fé naquele que me enviou, por isso fui enviado a ti. E se ainda crês nele, segundo a fé que tenhas, assim verás cumpridas as súplicas de teu coração.

E Abgar respondeu-lhe: de tal maneira cri nele, que quis tomar um exército e aniquilar os judeus que o crucificaram, se não me tivesse feito desistir o medo ao Império romano.

E Tadai [Tadeu] lhe disse: Nosso Senhor cumpriu a vontade do Pai, e uma vez cumprida, subiu ao Pai.

Disse-lhe Abgar: Também cri nele e em seu Pai, e Tadai [Tadeu] disse: Por isto vou pôr minha mão sobre ti em seu nome. E assim que o fez, no mesmo instante curou-se o rei de sua enfermidade e das dores que tinha.

E Abgar se maravilhou, porque tal como tinha ouvido dizer sobre Yeshua, assim acabava de experimentar de fato por obra de seu discípulo Tadai [Tadeu], que o tinha curado sem remédios nem ervas. E não somente a ele, mas também a Abdon, filho de Abdon, que sofria de gota e que, aproximando-se também de Tadai [Tadeu], caiu a seus pés, suplicou com suas mãos e foi curado. E muitos outros concidadãos curou Tadai [Tadeu], operando maravilhas e proclamando a palavra de Elohim. 

Depois disso disse Abgar: Tadai [Tadeu], tu fazes estes milagres com o poder de Elohim, e nós ficamos maravilhados. Mas eu te rogo que também nos dês alguma explicação sobre a vinda de Yeshua, como foi, e também sobre seu poder: em virtude de que poder operava ele os prodígios de que ouvi falar.

E Tadai [Tadeu] respondeu: Agora guardarei silêncio. Mas amanhã, já que fui enviado para pregar a palavra, convoca em assembleia todos teus concidadãos, e eu pregarei diante deles, e neles semearei a palavra da vida: sobre a vinda de Yeshua: como foi; e sobre sua missão: por que o Pai o enviou; e sobre seu poder, suas obras e os mistérios de que falou no mundo: em virtude de que poder realizava isto; e sobre a novidade de sua mensagem, de sua humildade e humilhação: como se humilhou a si mesmo depondo e reduzindo sua divindade, e como foi crucificado e desceu ao sh’ol, e fez saltar o ferrolho que desde sempre prevalecia e ressuscitou mortos, e como, tendo descido só, subiu a seu Pai com uma grande multidão.

Mandou pois Abgar que ao amanhecer se reunissem todos seus cidadãos e que escutassem a pregação de Tadai [Tadeu], e ordenou que lhe dessem ouro e prata sem poupar. Mas ele não o aceitou e disse: Se deixamos o nosso, como poderíamos tomar o alheio? Corria o ano de 340 [30 D.C., de acordo com o calendário vigente].

Baste para o momento este relato, que não será inútil, traduzido literalmente da língua Siríaca [Aramaica][1].

 


[1] História Eclesiástica, 1.12.3 e 1.13.

 

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